
quarta-feira, 21 de março de 2012
..:: Breaking the Ice - Cap. III ::.. Losing Grip

sexta-feira, 16 de março de 2012
terça-feira, 13 de março de 2012
..:: Breaking the Ice - Cap II ::.. Por que?

Então a morte era fria? Ela corria por suas veias e ao invés de impulsionar seus orgãos ela simplesmente congelava cada centímetro que percorria de seu corpo, levando tudo que você podia guardar dentro de você, levando você.
Sara sentia que sua existência estava se esvaindo a medida que o sangue de Raphael corria por suas veias, preenchendo-a, entrando em cada parte de seu corpo, em cada parte que ela queria manter oculta dele, mas o destino parecia que a expunha do pior modo possível, sempre colocando Raphael em seu caminho como se fosse algo inevitável.
No fundo seria mais justo morrer de arrependimento, afinal se ela pudesse escolher, ela nunca teria esbarrado nele na entrada da cafeteria, ela não teria dito nenhuma palavra sobre o quanto ele parecia idiota parado ali olhando a outra garota ir. Por que ele simplesmente não fora atrás dela?
Há quanto tempo aquilo acontecera? Um mês? Ela não sabia ao certo porque no fundo tudo o que ela queria era esquecer aquele episódio, esquecer que Raphael existia e que todas as noites ele era o ator principal numa série de pesadelos que ela tinha. Por mais que ela fingisse que ele não estava lá ela tinha a plena consciência de que ele estava, ela podia sentir no ar frio, ela podia sentir em tudo o que tocava, como se ele tivesse tocado antes apenas para deixar sua presença ali.
Naquela noite não foi diferente, enquanto calçava seus patins e encarava o gelo que fazia um vapor gelado subir, deixando a ponta de seu nariz e suas bochechas vermelhas, ela sabia que ele estava ali, sabia que estava a assistindo como um amante espectador, mas com certeza seus olhos não exprimiam nenhum sentimento relacionado ao amor.
Por que ele estava ali? Não era ela quem o estava procurando, não era ela quem estava querendo cruzar o caminho dele ao menos uma vez por noite desde o primeiro encontro. Ela queria ao contrário, ela queria que seus caminhos seguissem paralelos para sempre e que nunca mais se encontrassem.
Ela fechou os olhos e respirou fundo, tentando deixar sua expressão o mais neutra possível, fingindo que não havia sentindo a presença dele desde o instante em que entrara no rinque. Ela sequer precisava sentir, ela sabia que ele estaria ali.
Ela se levantou, sentindo os joelhos vacilarem e mordendo o lábio inferior, praguejando-se por dentro por deixar-se intimidar tão cedo pelo seu espectador. Tudo bem ele estava ali como todas as outras noites, o que isso poderia ter de diferente? Ele continuava a odiar ela do mesmo modo e ela tinha certeza que ele estaria se perguntando porque ela insistia em andar sobre o gelo. Provavelmente na mente egoísta e egocêntrica dele o único motivo para que ela fizesse alguma coisa assim era simplesmente o fato de poder pisar e riscar a perfeição gelada da pista, poder se sobrepor a ela, deixá-la sob seus pés, assim como ele provavelmente achava que ela gostaria de fazer com ele.
Era melhor esquecê-lo, ela estava ali para relaxar e não para deixar-se envolver por ele. O gelo que a envolvia nada tinha a ver com Raphael e ela não podia pensar nele por mais tempo do que já havia pensado.
Aos poucos ela ganhou velocidade e então alcançou o centro da pista, as luzes dos postes iluminando-a por completo, holofotes em seu palco de gelo. Ela pegou um novo impulso e fechou os olhos, deixando a sensação de praticamente voar a envolvê-la, esquecendo-se de Raphael, exatamente como desejava, mas ele estava ali e fazia questão de lembrá-la disso.
A pergunta dele fez o frio da pista subir para seu corpo, a sensação de uma pontada em seu estômago enquanto ela tornava a abrir os olhos e se virar nos patins, freando bruscamente, uma fina camada de gelo subindo na pista reta. Tudo o que ela via na arquibancada era apenas o ponto vermelho da ponta do cigarro, na posição em que estava os holofotes praticamente a cegavam para o resto, mas ela já conhecia o olhar dele. Ela odiava ao olhar dele.
- Quando você vai me deixar em paz? Seu egocentrismo barato já está me cansando! - ela sentiu o ódio queimar nas veias quando ele a chamou de amante de mundanos. Quem ele pensava que era? Ele era o filho de uma humana, como ela, mas ele não podia aceitar isso.
Sara passou as mãos pelos cabelos, tetnando se acalmar com aquele gesto, sua mão caindo distraidamente para o pescoço, exatamente no ponto onde ele a havia mordido naquele fatídico primeiro encontro. Ela sentiu a pele arder, como se mais uma vez os lábios dele passeassem ali e ela sentiu vontade de passar as unahs pela pele, de ferí-la novamente apenas para se livrar daquela sensação.
Outra frase dele e Sara sentiu uma onda de desânimo invadí-la, deixando as mãos cairem ao lado do corpo enquanto tentava encará-lo, sentindo o frio arder em seu rosto numa estranha espécie de febre. Ele estaria fazendo algo ou era só o fato do contraste entre a luz quente e forte dos holofotes da quadra e do frio contra o corpo dela?
Ela deixou um suspiro cansado escapar por seus lábios, mordendo o lábio inferior em seguida. Ela não queria respondê-lo, ela não queria dizer que o culpado de tudo aquilo era ele com toda sua arrogância. Ela queria dizer que eles eram iguais e se ele queria respeito das pessoas ele também teria que dar respeito e isso era algo que ele não parecia disposto a fazer.
Talvez se ela tentasse naquele momento pedir as desculpas que pensou em pedir. Não, ela pensava naquilo toda a vez que amanhecia e quando chegava na metade do dia o ódio por ele já estava queimando em suas veias a tal ponto que ela só conseguia pensar em como ofendê-lo.
"Papai... mamãe... me perdoem... você vão ficar tão decepcionados..." - ela deixou a franja cobrir seus olhos castanhos, talvez tivesse mais chances se Raphael não conseguisse ver todas as grosserias que ela estava pensando em lhe dizer em seus olhos.
"Você... quem é você Raphael? Quem é você se não o filho de uma humana e um vampiro? Um mero mestiço, assim como eu? Quem é você afinal que acha que tem o poder de um puro? Como eu gostaria que você mordesse a língua e se engasgasse com seu próprio veneno... como eu gostaria de te matar!" - seus pensamentos gritavam e ela fechou as mãos em punho. Apesar de tudo sabia que nunca seria capaz de matá-lo, Sara era incapaz de ferir alguém, ela não fora criada para viver no mundo em que Raphael vivia. Ela respirou fundo mais uma vez, era melhor responder vossa majestade.
- Eu não faço parte da sua vida, nunca vou respeitá-lo! - fora o melhor que conseguira afinal, estava muito longe de tudo o que queria realmente dizer, estava muito perto da realidade. Ela não fazia parte da vida dele, do mundo dele e ela nunca entenderia um mundo tão injusto quanto aquele.
Ela se virou, era o fim da entrevista, seu rosto doía pela sensação de quente e frio e seu peito ardia pela raiva que sentia dele, era melhor parar enquanto ela ainda estava sobre as próprias pernas, enquanto ele não descia até ela e tentasse colocá-la no lugar que ele achava que ela deveria estar.
- Quem é você afinal? - ela deixou o sussurro escapar de seus lábios, mas ele com certeza não ouvira.
Seu corpo estremeceu, mesmo de costas ela podia sentir o olhar dele, ela podia imaginar como ter virado as costas havia ferido o ego daquele ecogênctrico idiota e como ele deveria estar contando até dez para pular ali na pista e arrancar as respostas da boca dela, do pior modo possível.
Ela tornou a fechar os olhos, deixando seus passoa a guiarem sem rumo pela pista. Sabia os limites, já havia decorado cada esquina daquele lugar, sabia onde tinha que virar e até onde poderia ir para ficar longe o bastante dele, longe o bastante para que ele simplesmente deixasse de existir e ela pudesse se fechar em seu próprio mundo.
Mais uma vez, como se adivinhasse exatamente o momento em que os pensamentos de Sara se desprendiam dele, ela ouviu a voz de Raphael, próxima, a fazendo estacar, abrir os olhos assustadas enquanto o via surgir em meio a névoa que sobria a pista. Ela engoliu uma longa golfada de ar, sentindo o peito doer pelo frio. Ela encolheu os ombros, ela sempre se encolhia quando ele estava assim tão próximo, o medo inconsciente que tinha de morrer e decepcionar os pais, o medo inconsciente que tinha da dor que o simples toque de Raphael provocava. Ela nãoe scapou aquela sensação.
As mãos dele envolveram seus braços e mesmo sob a pesada blusa de lã que usava ela sentiu a pele arder, como se estivesse em contato com o gelo da pista, como se estivesse em contato com a pele dele. Tão frio, tão doloroso. Um gemido baixo escapou de seus lábios, a dor parecia avançar até seus ombros e depois até as pontas de seus dedos. A próxima frase dele deixou claro o quanto ele estava irritado, o quanto estava cheio de ódio por ela.
– O que você quer de mim? Para de me infernizar, se quer me matar, porque não mata logo? Idiota! - ela tentou num movimento inútil erguer as mãos, agarrando as abas da jaqueta que ele usava, era a mesma jaqueta do primeiro dia, ela nunca esqueceria aquilo. Seu corpo todo tremia, tanto pela dor quanto pela raiva. Por que ele simplesmente não terminava com aquilo de uma vez? Por que não aproveitava que estavam apenas o dois e então arrancava o coração dela. Em poucos segundos ela seria apenas um monte de cinzas no chão.
Ela o encarou, engolindo toda a saliva que se juntava em sua boca. Ah como queria cuspir naquele rosto,a quele rosto que tantas garotas achavam perfeito e ela só conseguia repudiar.
Ela recuou o rosto quando ele se aproximou para responsdê-la, para dizer que ela era o brinquedinho dele, como se ela não soubesse disso, como se não fosse humilhante demais saber disso.
O hálito dele bateu frio contra o rosto dela, fazendo-a fechar os olhos por um segundo para abrí-los em seguida, o encarando com raiva. Ele tinah razão, não importava quanto ela escondesse, ele sempre conseguiria ler no olhar dela o que ela sentia por ele.
Ela sentiu seu estômago se apertar quando encontrou o olahr dele, sentiu que todo o ódio que sentia parecia se juntar em sua garganta,fazendo-a arder, fazendo-a se esquecer de tudo por um momento. Ela não queria mais ser o brinquedo dele, ela queria colocar um fim atudo aquilo. Um mês, um longo mês com ele a cercando de todas as formas, sem nunca atacar, sem nunca atacar de verdade.
Ela recuou o rosto e então o impulsionou para frente, cuspindo no rosto dele com toda a força que conseguia, sentindo os lábios rachados pelo frio arderem pela saliva quente, tão quente quanto o ódio que ela sentia por ele. Ela sabia que aquele seria seu fim, se ele nunca atacara, agora com certeza ele iria atacar, mas ao menos aquilo teria um fim.
A pressão do aperto em seus braços aumentou, fazendo seus ossos estralarem, sua carne parecendo ceder ao aperto do vampiro, ao gelo de seu toque, a dor subindo em uma única vez, fazendo seus joelhos fraquejarem.
Os gritos de dor escparam antes mesmo que ela pudesse contê-los, afinal dar a Raphael o gosto de ouví-la sentir dor era a última coisa que ela queria.
Ela escorregou nas lâminas dos pastins, seu corpo sendo deitado lentamente sobre o gelo, sentindo então ele prender as pernas dela com uma única perna e prender seus pulsos com facilidade, como se ela não fosse como ele, agora que ele estava ali sobre ela ela tinha certeza de que ele não era.
Ela o olhou aterrorizada, toda a coragem que a impulsionou ao ato agora havia se esvaído e dado lugar ao frio que ela sentia envolvê-la e que tornava tudo pior.
- Não! Não! - ela gritou desesperada, implorando para que ele não lhe fizesse nada, para que lhe desse ao menos uma chance, se é que ela tinha alguma chance.
Ele se aproximou, prendendo o olhar dela ao seu, impedindo-a de virar o rosto. Silêncio, ele sequer respirava enquanto a encarava daquele modo, enquanto a raiva e o ódio que ele tambéms entia por ela dançavam em seus olhos infinitamente azuis. Eles seriam capazes de encantar qualquer garota, mas para Sara eles significavam apenas a morte. No fundo, uma aprte dela desejou ler a mente dele, o que estava passando pela cabeça de Raphael agora que ele estava prestes a matá-la.
Ela estremeceu quando os lábios dele finalmente se moveram e ele a chamou de vadia. No fundo aquilo não a surpreendeu, na verdade era algo até mais leve do que ela esperava, seu rosto ainda estava intacto afinal, seu coração ainda estava dentro de seu peito.
Ela respirou pelos lábios entreabertos, sentindo o ar frio entrar-lhe pela garganta enquanto uma idéia louca surgia em sua mente. E se ela o mordesse? Se ela o atacasse e o surpreendesse talvez tivesse uma chance de fugir. Ela passou a língua pelos lábios, sentindo as presas arranhá-la. Ela nucna havia feito aquilo, ela nunca havia atacado alguém antes.
Seu pai sempre lhe dera sangue e Sara sequer chegou a sentir sede em sua vida, estava sempre cercada de cuidados, estava sempre protegida pelo abraço do próprio pai, um vampiro muito acima do que ela e Raphael jamais seriam, um vampiro que nascera vampiro.
A pergunta dele deixou claro que ele notara as intenções dela. Como ele era capaz? Era como se ele a conhecesse muito mais do que ela jamais imaginara que alguém fosse capaz, além de seu próprio pai.
- Não! - ela tentou negar, sentindo as lágrimas encherem seus olhos. Como pudera pensar em algo tão estúpido como aquilo? O que ela achava que conseguiria afinal?
Ela sentiu Raphael congelar seus pulsos, prendendo-a na pista e num esforço inútil ela tentou se livrar do gelo, ralando a pele fina, manchando o gelo com um vermelho claro que logo se escureceu por conta da temperatura.
Ela o olhou, sentindo o pânico aumentar quando percebeu o que ele estava fazendo, quando o viu morder o próprio pulso e se aproximou. Laços, laços de sangue que não podiam ser quebrados com facilidade. Ela nucna beberia o sangue dele.
Ele precionava o pulso com tanta força que logo o rosto de Sara começou a doer, marcas vermelhas sobressaindo na pele que começava a ficar azulada pelo frio, mas ela não engoliria nenhuma gota, ela não...
Ela não teve alternativa, ela esperava algo quente e aconchegante como o sangue do pai, mas tudo o que Sara sentiu escorrer por sua garganta foi um líquido frio, amargo, tao cheio de dor que só a fez chorar mais. Ela queria cuspir aquilo, aqueles sentimentos, mas sua garganta pareceu arranhar ainda mais quando o sangue de Raphael a tocou, numa sensação que ela nunca sentira antes.
Ela ouviu as palavras dele, chorando ainda mais porque sabia que aquilo era verdade, que agora ela estaria tão ligada a ele que o sentiria ainda mais quando estivessem próximos.
A mão fria dele correu por seus cabelos, mas ela mal podia sentir seu toque, a sensação de pela primeira vez ter sede parecia algo que anulava qualquer outra sensação, inclusive a de medo dele e todas as coisas que ela sentia no sangue que agora descia por sua garganta. Como alguém poderia sentir tanta dor e ainda continuar em pé como ele?
Ela afastou-se, tinha que parar com aquilo. Fechou os lábios mas logo os abriu, suas presas os ferindo sem dó, expostas, desejosas por mais sangue, por sentir ainda mais a pele fria dele contra seus lábios.
"Não... por favor..." - a mente dela suplicou quando ele lhe perguntou se ela queria mais, mas tudo o que seu corpo conseguia fazer era pedir por mais, sem se importar com o peso dele sobre ela, seus olhos fixos no pescoço pálido, na veia que pulsava sob a pele, fazendo as presas dela doerem. Que tipo de sensação era aquela afinal? Por que ela nunca sentira aquilo antes? Seus olhos estavam vermelhos, seu corpo estava rijo, suas unhas estavam fincadas contra as palmas das mãos. Ela sentia-se totalmente sem controle.
O sangue dele agora se espalhava dentro dela e ela queria sentir mais daquela dolorosa sensação que era tê-lo invandido todo seu ser de uma única vez, ela queria desvendá-lo e matá-lo, ela queria que o fim viesse logo.
Seus lábios tremiam pela febre e pelo frio que se misturava dentro dela enquanto ela sentia Raphael prendê-la entre suas pernas. Talvez qualquer outra desejasse estar ali, mas ela...
- Eu não quero... - ela praticamente chorou aquelas palavras, fechando os olhos, tentando apagar a imagem dele de sua mente, tentando fazer com que todo aquele turbilhão de sensações dentro dela cessassem. Ela mal conseguia sentir o próprio corpo sob o corpo dele, mas sentia que ele estava próximo, muito próximo e num impulso tolo ela ergueu uma das pernas, sentindo a pressão nada gentil das pernas dele contra a coxa dela.
Ela abriu os olhos, sua visão enchendo-se totalmente com ele, coms os cabelos brancos que caiam sobre o rosto dele, sobre sua nuca, com o pescoço dele a milímetros de seus lábios. Ela deveria repudiá-lo, mas o cheiro que escapava da pele dele a envolvia de uma forma que ela nunca conseguiria explicar.
Seus lábios tocaram a pele fria dele, mordiscando-o, arranhando-o. Ela queria ferí-lo tanto quanto ele a estava ferindo, mas ela sequer sabia como fazer aquilo. A única pessoa que mordera em toda sua vida fora seu pai e ela sempre fazia aquilo com todo o carinho do mundo, pois ela o amava e entendia a honra que era o fato dele lhe ceder sangue.
Ela deixou sua língua correr pela pele de Raphael, estremecendo ao sentir o gosto dele, suas mãos se movendo, seus pulsos tentando se soltar, ela queria tocá-lo, ela queria ferí-lo, ela simplesmente o queria e ela não sabia exatamente porque.
Suas presas deslizaram pelo pescoço dele, o frio deu um breve instante para uma sensação quente quando o perfume dele pareceu tomar todos os seus sentidos, quando o sangue dele pareceu dominar novamente sua razão.
Suas presas afundaram lentamente na pele de Raphael e quando o sangue invadiu sua boca seus lábios colaram-se a pele dele, sugando com vontade dessa vez, sem mais negar a sede que sentia, sem mais se importar com toda a dor que o sangue dele lhe trazia. Ele gemeu e mais uma vez os pulsos dela se feriram nos gelos enquanto suas mãos tentavam se libertar.
Aos poucos a sensação que sentia de desejo foi diminuindo, a medida que o sangue dele preenchia cada veia dela, a medida que ele deixava o peso de seu corpo praticamente sufocá-la e aos poucos sua consciência foi voltando, enchendo-a com perguntas confusas, enchendo-a com uma sensação incrível de vazio. Por que ela havia feito aquilo?
– Por que...? Por que você faz isso? – ela afastou as presas do pescoço dele, ainda deixando seus lábios tocarem a ferida, cicatrizando-a num cuidado que ele não merecia, mas era algo quase inconsicente que ela fazia.
Ela deixou a cabeça pender para trás, trocando o chão frio enquanto encarava o apr de olhos azuis, sentindo a visão turvar, sentindo que agora estava totalmente a mercê dele. Sem resposta, ou ela não ouviu a reposta, pois logo sua mente se desligou, assim como seu corpo, o frio a vencera finalmente, a dor de todos aqueles sentimentos a esgotara como nunca.
Seu corpo ficou inerte enquanto os olhos de Raphael corriam por ela, os sons à sua volta chegavam como se ela estivesse afundando na água, confusos e sem sentido e tudo o que ela conseguia sentir era algo frio descer por seu pescoço.
A madrugada seguiu sem que ela sequer se movesse, lapsos de consciência a faziam mover a cabeça de um lado para o outro, os olhos mortos não se fixavam em nenhum ponto.
Suas mãos estavam ao lado do corpo, as algemas de gelo que a prendiam estava partidas, machadas de sangue, mas ela não sabia de onde tirara forças para rompê-las.
Os primeriso raios de sol encontraram Sara virada de lado sobre o gelo com uma mancha escura sob o rosto, uma mancha formada pela sangue de Raphael, pelo sangue que agora corria em suas veias.
Ela primeiro sentou-se, pingos de água escorrendo por seus cabelos, por sua roupa totalmente enxarcada. Seu corpo tremeu convulsivamente e ela se abraçou, sua mente tentando buscar as lembranças da noite passada.
As lembranças da noite passada, elas só vieram quando ela estava encolhida no canto do box no banheiro, enquanto um jato de pagua quente lavava completamente o gelo dela, de suas roupas. Ela sequer tivera forças para se despir, ou ela não queria se despir, não queria se sentir mais indefesa do que estava se sentindo agora.
As lágrimas desciam por suas bochechas que exibiam um tom vermelho alarmante pelas queimaduras do frio, mas ela mal sentia a dor dos machucados. O que doia era por dentro e doia de um modo que ela nunca imaginou que pudesse doer.
AS lembranças de Raphael misturadas dolorosamente em seu sangue, o ódio que ele sentia por ela e ela por ele dançando em suas veias, misturado aquela sensação estranha que parecia queimá-la por dentro e congelá-la em seguida. Por que o havia mordido? Por que havia desejado o sangue dele?
Ela abaixou a cabeça, afundando o rosto nas nãos feridas cobertas pelas mangas da blusa de lã, seus dedos se enroscando nos cabelos que caiam sobre o rosto, puxando-os.
Aquela sensação, aquela sensação de que estava sendo partida ao meio, aquela sensação dele sobre ela, cada parte de seu corpo encontrando o corpo dele enquanto o sangue dele vertia para dentro de sua boca. Aquilo era doloroso, era humilhante e ela torcia para que a água quente lavasse aquelas sensações, ela torcia para que fosse capaz de expelir todo o sangue dele de dentro dela, mas ela sabia que era impossível. E aquilo doía.
- Por que...? - ela soluçou num fio de voz, tossido, engasgando-se com a água do chuveiro, se encolhendo ainda mais. Por que ele havia feito aquilo? Por que a odiava tanto? Eles eram iguais não eram? Por que eles simplesmente não poderiam se dar bem e... ela poderia ajudá-lo com toda aquela dor - Por que... ainda está em pé?... - ela soluçava cada palavra. Quem era Raphael Grifftis afinal? O que ele queria afinal? Por que ele havia empurrado toda aquela dor para cima dela?
- Por que?... - ela ergueu o rosto, encarando as gotas de água quente como se ele estivesse ali, como se ele fosse responder. Mas ela sabia que ele nunca responderia e talvez naquela noite ele resolvesse tomar o sangue que lhe dera de volta, talvez ele quisesse espalhar aquela dor ainda mais.
Era tão intenso que fez Sara abraçar-se ainda amis ao se lembrar. Era doce e amargo, era frio e quente e doía e por um momento ela desejou toda aquela dor e elmbrar disso fez seu rosto arder e seu peito doer. Que tipo de pessoa ela etsava se tornando? Que tipo de pessoa ele a estava tornando?
-... espalhar toda essa dor... por que?.... - ela abaixou a cabeça, deixando os braços caírem pelo chão de ladrilho, as gostas de água se jutnando nas palmas viradas de suas mãos.
- Por...que? - seus lábios se moviam sem emitir nenhum som enquanto ela fechava seus olhos. Quantas noites ela levaria para descobrir? Quantos noites ela ainda teria?
Essa postagem é o segundo capítulo da Fic escrita por minah Amiga Fran, quem quiser conferir o primeiro capítulo basta clicar aqui. O primeiro capítulo conta os fatos na visão de Raphael Grifftis, um vampiro nada gentil!
segunda-feira, 12 de março de 2012
..>> Can You See me? <<..
O moletom cinza refletia os raios alaranjados do por do sol enquanto Icaru corria em volta do lago, o vento frio não lhe incomodava, sua pele sequer sentia a sensação gelada que desvia das montanhas e pairava pelas águas cristalinas do lugar. Ele não sabia exatamente porque estava fazendo aquilo, mas era uma forma de colocar suas ideias no lugar, de colocar um pouco de toda a energia que sentia em alguma coisa.A princípio ele não estava interessado na maioria das atividades da escola, afinal ele não era um humano, não havia porque passar por aquele tipo de coisa, mas aos poucos as coisas mudaram. O time de basquete despertara sua atenção de forma natural, sua habilidade com a bola e a cesta surpreendeu-o e agora ele fazia parte da equipe.
Fazer parte de uma equipe, aquilo era algo que surpreendia de uma forma que ele não seria capaz de explicar para alguém, ou melhor, que ninguém entenderia afinal.
Ele ergueu a cabeça, os raios banhando seu rosto, deixando sua pele alaranjada enquanto ele sorria. Há quanto tempo ele estava correndo ali? Ele retirou o capuz, seus cabelos ruivos caindo sobre os olhos verdes, fazendo-o semicerrá-los enquanto movia a cabeça para o lado para afastá-los.
Seus olhos se fixaram em uma das mesas que ficavam dispostas à beira do lago, os longos bancos de madeira convidavam para pic nics, reuniões, mas isso não chamou a atenção dele.
Aquela hora a maioria dos alunos já estariam recolhidos, mas havia alguém sentando em uma das mesas e assim que reconheceu quem era Icaru sorriu. Ela estava retribuindo o favor que ele lhe fizera ao visitá-la em seu treino no tatame e agora estava ali esperando por ele?
Ele continuou sua corrida, subindo um pequeno morrinhoa té alcançar a mesa onde a garota estava. Ela usava uma jaqueta jeans surrada sobre uma regata verde oliva e shorts pretos, trazia sua espada de kendo e estava com os cabelos presos, provavelmente ela havia acabado de deixar o treino. Ao lado dela um saco pardo deixava escapar um cheiro muito apetitoso.
- Oi... - ele escalou o banco e sentou-se ao lado dela na mesa, Yumi afastando-se de lado e o olhando, sorrindo com o cumprimento.
- Oi... - ela respondeu num tom baixo e ele reparou que o rosto dela ainda estava corado, é, talvez ele estivesse certo e ela tivesse saído do treino a pouco tempo. Ele desviou o olhar para o saco, reconehcendo a logomarca de um restaurante de fast food. Ele sentiu seu estômago roncar, aquilo era tão humano afinal.
Yumi tirou um dos copos vermelhos de refrigerante e colocou diante dele, espetando o canudo amarelado e esperando que ele apanhasse. A bebida estava doce e gelada, o que era muito bom depois de uma corrida.
- Achei que havia um trato sobre não mimar um ao outro - ele disse, encostando o canudo na boca e tomando um gole enquanto a olhava - Ou então algo me diz que o gosto doce dessa bebida vai ter um preço um pouco amargo - ele sorriu, sabia que ela nunca lhe pediria nada demais. Amigos, ela havia se tornado sua melhor amiga naquele um mês.
- Eu só achei que seria justo - ela respondeu, dando de ombros enquanto apanhava o outro copo e fazia o mesmo com o canudo, tomando um longo gole da bebida - Me disseram que você foi muito bem no treino de hoje, então achei que o novo capitão merecesse - ela ergueu o copo como se brindasse e Icaru coçou a cabeça, encolhendo como se ficasse pouco a vontade com aquele título, mas sorriu.
Ele estava com os dois pés sobre a mesa, ao contrário dela que mantinha os pés sobre os bancos. Ele deixou o refrigerante de lado e estendeu a mão, pedindo o pacote de lanches.
- As notícias correm rápido demais aqui, eu havia me esquecido disso - ele respondeu um tanto sério - Mas eu vou aceitar sua comemoração... - ele disse, apanhando os aco que ela lhe jogou no ar e abrindo. Um sanduíche com bacon e queijo, era tudo o que ele poderia desejar e desejava naquele momento. Havia outro sanduíche, provavelmente o dela. Ele retirou os dois dali de dentro e então estendeu para ela o outro embrulho, um sanduíche de frango e salada.
- Se não aceitasse eu faria você engolir ele de qualquer forma - ela apanhou o sanduíche da mão de Icaru e então passou a desembrulhá-lo, olhando para o pão em sua mão - Na verdade as notícias não correm tão rápido assim, foi só alguém que me disse, alguém que estava feliz por você - ela completou num tom baixo, levando então o lanche à boca.
Icaru mordeu seu próprio lanche, ele sabia quem seria o tal alguém a quem Yumi se referia, era alguém que ele estava tentando evitar em pensar, tentando evitar em encontrar, mas era impossível afinal. Ela estava no treino, estava em todos os treinos para dizer a verdade e por algum motivo ele torcia que o motivo para a assiduídade dela fosse outro que não ele.
- Eu também estava no treino de hoje, um pouco, no começo na verdade - Yumi continuou ao notar que ele nada dizia. Ela o olhou de lado, sabia bem qual era a expressão que Icaru fazia quando ela começava a falar sobre aquele assunto.
Ele deixou seu olhar vagar pelo horizonte onde os raios laranjas começavam a ser substituídos pelos raios arroxeados do anoitecer.
- O que mais ela disse? - Icaru interrompeu Yumi, colocando seu lanche sobre o embrulho, observando a caçadora morder o lábio enquanto tornava a olhar seu próprio lanche, como se ele fosse capaz de lhe dizer o que exatamente ela tinha que dizer para Icaru. O que ela tinha que dizer para que ele simplesmente não virasse às costas entendendo tudo errado.
- Não conversamos muito, eu queria sair para comprar os lanches. Ela disse que está orgulhosa de você, mesmo que isso não import... - ele se calou ao ouví-lo bufar e ele saltou da mesa, levantando-se e andando de um lado para o outro, com as mãos nos bolsos.
Sua mente tinha claro a imagem da outra garota, os longos cabelos caindo sobre as costas dela, o sorriso que sempre se mostrava gentil para ele. Ela não podia entender? Eles cometeram um erro.
Aquela noite no quarto dele não ia se repetir, o beijo, as discussões. Tudo aquilo deixava claro que havia algumas coisas que não tinham porque ser e mesmo que algo dentro dele queimasse quando ele lembrava daquilo ele sabia que era mero desejo. O que Marina idealizava nele só existia na mente dela, ele era confuso, ele não era nenhum herói, ele era apenas alguém perdido, um otário perdido em seus próprios erros. O filho de seu próprio fracasso, cheio de buracos em sua própria personalidade, tornando-o tão inconstante ao ponto de beijá-la e depois desejar esquecê-la.
Ele parou diante de Yumi e olhou para ela. Ela também não tinha culpa, mas ele sempre ficava tão irritado quando ela começava a falar daquele modo, quando ela tentava fazer com que ele aceitasse o fato de que Marina estava apaixonada. Ele não sabia explicar o porque, mas se qualquer outra pessoa dissesse aquele tipo de coisa tudo seria diferente, ele saberia o que responder, mas quando era Yumi ele simplesmente saia do sério.
- Eu já falei com você sobre isso Yumi, você já... viu como isso funciona... - ele parou diante dela, apoiando as mãos sobre a mesa, uma de cada lado dela, olhando então nos olhos da garota - Pare de tentar mudar isso, eu não vou voltar com ela - ele se afastou, sentando então no banco ao lado dos pés dela e apoiando às costas na mesa, deixando sua cabeça pender para trás, olhando o céu, olhando as nuvens sobre as copas quase negras das árvores - Por que você quer tanto isso? - ele perguntou de repente, se virando para ela.
Yumi arregalou os olhos por um momento, encarando-o sem saber o que realmente responder, porque ela realmente não entendia o porque de querer ver Icaru com outra garota. No fundo ela apenas não queria admitir que aquela seria a maneira mais fácil para que ela não se sentisse tentada e desejar que ele olhasse para ela.
Ela desviou o olhar, ajeitando-se melhor sobre a mesa, colocando um dos pés sobre o tampo de madeira e mordendo seu sanduíche, fazendo qualquer coisa para adiar a resposta que Icaru queria ouviur, porque aquela não era a resposta que ela queria dar.
- Vocês são bonitinhos juntos - ela limitou-se a dizer e Icaru riu, seu riso saindo cheio de cinismo enquanto ele se levantava e sentava-se na mesa dessa vez.
Ele inclinou o corpo para frente e apoiou os cotovelos no joelhos, olhando para frente enquanto abria e fechava a boca algumas vezes, as palavars dançando em seus lábios, mas ele desistia e acabava negando com a cabeça.
- Se for assim então eu talvez deva ficar com você - ele se virou para ela, ela certament se magoaria com ele, asm ele estava irritado e não cnseguia pensar em alguma coisa gentil a dizer e ele não queria mais ouvir aquele tipo de insinuação - Você combina comigo em muitos sentidos então talvez a gente simplesmente devesse levar isso em conta e nos beijar agora - ele ergueu a mãoa té o rosto dela, segurando seu queixo e se aproximando.
A frase fizera uma onda de choque correr pelo corpo da garota e ela só se deu conta da proximidade de Icaru quando o nariz dele estava quase tocando o dela. Como se ele lhe desse um choque ela acertou-se um tapa na mão, se afastando dele com uma expressão zangada. Por que ele estava agindo daquele modo?
Ele afastou a mão, abaixando a cabeça enquanto Yumi permanecia calada, o coração batendo rápido demais, seus dedos afundando no pão macia, fazendo o molho manchar a embalagem do sanduíche. Sim, fora bastante estúpido o que ela havia dito, mas ele não precisava agir daquela forma, como se ela simplesmente nunca fosse rejeitá-lo. Ela rejeitaria ele, ela tinah que rejeitar ou ele não estaria mais ali.
- Você é tão estúpido! - ela exclamou e dessa vez foi ela quem levantou da mesa, as mangas da jaqueta jeans cobriam suas mãos e ela as apertava com força, sua bota agora chutava e torturava a grama da beira do lago - Isso não tem a ver comigo, eu não estou apaixonada! - ela disse, fechando os olhos por um minuto e colocando as mãos sobr as têmporas, as apertando enquanto tentava se acalmar e não dizer algo do que fosse se arrepender depois.
Ela não estava apaixonada, ela só havia amado um cara em toda a sua vida e era nele que seus pensamentos se forçavam em encontrar um ponto. O desprezo do outro garoto era a melhor forma de colocar todos os garotos como desprezíveis, achar que Icaru ficaria com Marina e ignoraria ela era a melhor forma de colocar qualquer sentimento de atração que tinha por ele num ponto onde se tornaria apenas uma emoção desprezível.
- Ela não está apaixonada! - ele replicou, batendo a mão em punho no banco de madeira. Que droga! por que ninguém conseguia entender que aquilo fora culpa dele? Fora ele quem beijara Marina e agora ela acreditava que ele era o melhor para ela? - Se eu beijar você vai ser o suficiente para dizer isso? Por que você não entende de uma vez por todas? - ele se levantou e parou ao lado dela - Por que acha que se eu quisesse estar com ela eu não estaria ainda amis sabendo que ela também quer isso?! Que droga! De todos os idiotas que me perguntam isso o tempo todo, que me perguntam sobre ela, você é a que mais me irrita Yumi Campbell! - ele esperou que ela ao menos o olhasse dessa vez.
Yumi sentiu seu estômago se embrulhar enquanto aquela sensação de que lágrimas se acumulavam em seus olhos se fez sentir. Aquilo era ótimo, aquela sensaçãod e que você fez algo estúpido mas podia se desculpar caso aprecesse ser frágil demais. Era ótimo, mas ela não queria aquilo. Ela se virou para Ivaru deixando toda a indignação que sentia tingir seu rosto.
Uma sensação ruim, aquela sensação que temos um segundo de dizer as coisas que não devemos dizer. Aquele filme cheio de cenas com a pessoa que estamos afastando. Ela mal havia aberto a boca e podia ver Icaru através da grade que separava a quadra e a arquibancada. Ela sorria e acenava e ela acenava timidamente, tinha medo de magoar Marina, mas ele parecia imune a outra garota.
Ele corria com a bola, batendo-a com rapidez no chão, mas na mente dela cada impacto acontecia em câmera lenta, como as batidas de seu coração, cada desvio dele era como se ele deixasse os adversários para trás e viesse até ela e ele estava vindo, mas quando estava há alguns metros ele saltou, saindo de seu campo de visão.
Um ponto para o time, ele ainda estava pendurado no arco, rindo e então caiu diante dela, os cabelos ruivos quase cobrindo os olhos, a pele dele com um brilho quase sobrenatural, era tão diferente vê-lo como alguém normal, como um garoto de colégio fazendo cestas para o time.
- Pra você... - ele sussurrou e então virou-se de costas, correndo novamente para o meio da quadra. Ela sorriu, mas seu sorriso logo sumiu quando ela notou o olhar da outra garota sobre ela.
Yumi sentiu um calafrio quando seus olhos encontraram os de Marina e ela sentiu que sua amizade com Icaru realmente deveria incomodar a outra garota, mas fora algo que acontecera naturalmente, algo que ela não conseguira impedir.
- Eu estou falando com você! - Icaru segurou o ombro dela e a sacudiu, Yumi demorou alguns segundos para perceber que não estava na quadra, que ele estava diante dela e que os olhos dela estava vermelhos, assim como a ponta de seu nariz - ... por que está chorando? - ele perguntou, tirando a mão do ombro dela, como se aquilo fosse uma arma e não dedos.
- Eu não estou... - ela levou as mangas da jaqueta ao rosto, passando-as de forma nervosa sob os olhos, fechando-os por um momento - E eu... - ela mordeu o lábio, lembrando-se do olhar de Marina, lembrando-se do olhar dele ao fazer o ponto, lembrando de cada olhar dele, de cada vez que ele não se importava nenhum pouco de deixar Marina falando sozinha e ir até Yumi. Ela se sentia uma intrusa - ...Eu não quero me apaixonar por você nunca! - a frase escapou, surpreendendo até mesmo Icaru que recuou um passo. Ela havia dito aquilo com tanta raiva que tudo o que ele conseguiu fazer foi erguer as mãos e abrir a boca, mas nenhum som saiu - Eu sou uma idiota irritante, mas você é pior do que eu! E se te irrito então porque quer tanto ficar aqui? Por que você fica dizendoe fazendo coisas como se eu fosse sua amiga? Como se eu importasse?! Como se eu... valesse... - a voz dela foi sumindo. Ela havia tentado ser tão forte, tantas vezes, ainda mais quando estava com Icaru aquilo era tão difícil.
Icaru ficou em silêncio, observando a garota que insistia em manter a cabeça baixa e enxugar o rosto, fungando o tempo todo, como uma menininha que não conseguia enfrentar seu problema e no caso ele era o problema.
- Você está me irritando... - ele começou e Yumi sentiu uma pontada no estômago, mesmo bravo, aquele não era o Icaru que ela conhecia, aquelas coisas que ele dizia não eram as coisas que ele dizia - como se valesse... - ele repetiu em voz baixa, aproximando-se então dela, apoiando as duas mãos nas curvas da cintura estreita da garota - você me irrita quando não vê as coisas... - ele completou, puxando-a para um abraço, forçando-a contra seu peito memso que ela relutasse.
- Pra você - ele havia oferecido aquele ponto para ela no treino do dia anterior e ele queria oferecer mais pontos, havia sido um bom jogo, o melhor jogo an verdade. Agora que estava acostumado com os outros garotos do time, que sabia o quanto poderia se esforçar, ele sentia-se mais animado.
Ele fez mais pontos na partida, mas quando a procurava nas arquibancas para dizer algo não a encontrava. Yumi havia simplesmente saído e sequer se despedira. Havia acontecido algo?
Ele sentiu-se irritado, o olhar de Marina parecia perseguí-lo por toda partida e sempre que ele encarava os bancos a havia acenando para ele, vendo-se obrigado a retribuir, vendo-se obrigado a sorrir, mas ele sentia que aquilo estava errado.
Depois do treino a garota fora falar com ele, mas ele não tinha nada a dizer, ele não sabia o que dizer e isso foi o suficiene para que ela pregasse uma peça nele.
Os lábios dela moviam-se sobre os dele como na primeira noite dele no Canadá, como a boas vindas de Whitler e tudo o que ele limitou-se a fazer foi afastá-la. Marina sorria de forma vitoriosa e se afastava e ele permanecia ali como uma estátua, sem coragem de dizer o que tinha que dizer para Marina.
Ele apoiou a cabeça nos cabelos de Yumi e então fechou os olhos.
- Marina! - ele chamou e a garota parou, surpresa e ele caminhou até ela, olhando-a nos olhos. Era difícil encarar alguém que tem tantas ilusões sobre você, mas ele sabia que se não dissesse aquilo naquele momento ele nunca diria - nós precisamos conversar... - ele começou, torcendo para que nada desse errado dessa vez, para que ela não desmaiasse ou fingesse qualquer mal estar. Ela nunca o ouvia até o fim e aquilo era tão injusto.
Lágrimas, as mãos dela acertaram seu rosto diversas vezes, frias e quentes, exatamente como todos os sentimentos que passavam pela cabeça da garota. Ele estava sendo sincero, ele não podia ser alguém que ela queria que ele fosse, ele não podia ser o garoto perfeito, porque ele não era perfeito, ele era um fracasso.
Ele ficou uma longa hora a abraçando ali, perto dos vestiários, ouvindo algumas piadinhas de quem passava, até que por fim ela se acalmou. Não, ela não ia desistir, ela jurara aquilo para ele, olhando-o cheia de mágoa mas ainda cheia de amor.
Ele passou a mão pelo rosto e deixou-se escorar pela parede enquanto a menina ia embora. Icaru bufou, olhando o corredor agora vazio e praticamente escuro, fora o último a deixar o ginásio naquela noite.
Yumi permanecia imóvel em seus braços e ele a afastou apenas para ter certeza de que ela ainda estava chorando, que ele a havia magoado com suas palavras, que ele estava sendo dúbio e imprudente com os sentimentos dos outros. Ele não devia ter dito que a beijaria, mas ele quisera dizer isso. O motivo era tão simples.
- Yumi... - ele colocou a mão sob o queixo dela, erguendo o rosto e vendo os olhos verdes semicerrados cheios de mágoa. Ele quase riu, afinal eram tão irônicos aqueles mals entendidos - Me desculpa... - ele pediu, sua expressão tornando-se estranha enquanto ela apenas assentia dizendo que sim, encarando-o com um ar de superioridade, como se tudo aquilo de agora pouco não tivesse sido nada.
Ele bufou, soltando o rosto dela e passando a mão pelo pescoço, olhando em volta os últimos raios laranjas se apagando, a escuridão passando a cercá-los.
- Se pudesse mudar alguma coisa Yumi, quando chegou aqui, você mudaria? Você me... ignoraria aquele dia na escadaria? - ele perguntou, passando a língua pelos lábios, eles pareciam secos como se não bebesse nada há horas.
- Não! - ela respondeu prontamente, mordendo o lábio em seguida, olhando-o nos olhos. O que era aquela pergunta agora? - Não sou eu quem estou com raiva de você - ela disse - além disso, nada se pode mudar do passado, se mudasse... talvez nada realmente mudasse - ela continuou, sentindo-se confusa e preferindo se calar então. Falar de sentimentos era tão difícil.
- Então tudo bem - ele assentiu e depois negou com a cabeça, assentindo novamente. O que estaria pensando? Ele estava agindo tão estranho.
Os lábios de Icaru se fecharam numa linha reta e ele voltou a encarar a garota diante dele, os cabelos ruivos dela apreciam ganhar ainda mais vida ao pôr do sol.
Ele estendeu a mão, envolvendo a nuca dela, olhando-a fixamente por alguns segundos, seus olhos querendo decorar cada linah do rosto de Yumi antes de se fecharem e então ele a puxou para frente, colando seus lábios sobre os dela, movendo-os com um pouco de urgência enquanto sentia o gosto salgado das lágrimas dela misturarem-se ao gosto doce do refrigerante.
Icarus entiu os punhos fechados da garota encontrarem seu peito, esmurrando-o tentando afastá-lo, mas ele continuou no mesmo lugar, mesmo que aqueles golpes cheios de raiva o incitassem a fugir. Não, ele não ia fugir, ele ia fazer aquilo pelos dois então, pelo pouco tempo que restava para os dois. Se ele se arrependeria depois e mudaria algo? Não, como Yumi mesma dissera, talvez nada mudasse.
Os sons de protestos dos lábios dela logo se calaram e então ele deixou sua língua deslizar para fora de sua boca, encontrando a boca dela, sua mão descendo pelos longos cabelos que se enroscavam em seus dedos enquanto com o outo braço ele envolvia as costas dela, trazendo-a para si.
Então aquela era a sensação certa de se sentir? Quando não era só o desejo que queimava e você queria tanto aquela pessoa como se ela fosse uma parte sua arrancada e agora estivesse ali, prestes a se juntar a você pelo simples toque de um beijo?
Icaru fechou a mão nos cabelos dela, afastando-os do ouvido de Yumi, deixando seus lábios deslizarem pela bochecha dela até encontrarem seus ouvidos.
- Você me irrita... porque você não me vê e eu te vejo o tempo todo - ele confessou num sussurro. Estava cansado dela olhar para ele e ver apenas Marina enquanto ele a deixava cada vez mais entrar em seu mundo, cada vez mais guiar o que ele fazia e sentia.
Ele voltou a beijá-la, deixando sons doces e baixos escaparem de seus lábios enquanto provava a pele dela, o gosto salgado de todo de todo o esforço dela no treino, das lágrimas que haviam escapado. Ele queria aquilo, ele quisera aquilo por muitos momentos.
Ele se afastou dela, seus olhos procurando o olhar confuso da garota enquanto ele simplesmente sentia-se completamente compreendido. Não havia no que pensar naquele momento, no que questionar. O que ele queria e pensava ficara tão claro que ele sentia que se sua existência terminasse naquela noite ele teria feito exatamente o que tinha que ser feito.
- Eu quero que me enxergue... a partir de agora eu quero que me veja e não veja outra pessoa além de você ao meu lado... - ele soltou ela de seu abraço e então recuou um passo, deixando sua mão descer pelo braço da garota - Eu... quero você do meu lado, em todos os treinos, em todos os momentos em que você puder fugir e vir até mim, em todos os minutos que você tiveer disponível e quando não tiver mais nenhum tempo. Eu não me importo se isso é ser egoísta, mas eu vi que o amor é egoísta então eu não vou fingir que eu sou melhor do que realmente sou e deixar você livre - ele estendeu a mão - Você... me vê agora Yumi? - ele perguntou, fazendo um gesto no ar - Você vê o quanto vale para mim?
Yumi sentia o sangue pulsar em suas bochechas, seus olhos fixos em Icaru como se o visse pela primeira vez. A mão estendida dele no ar, as palavras dele, o beijo.
Seus lábios ardiam ao sentir os resquícios do toque dos lábios de Icaru e ela ainda não conseguia entender o que acontecera. Seu coração batia tão forte como todas as dúvidas e cenas anteriores martelavam perguntas em sua mente, acima de todas aquela que ele fazia.
Ela conseguia enxergá-lo? Ela conseguia ver além do ex-namorado de uma das garotas do colégio que ainda era apaixonada por ele? Ou ela só via eles juntos e ela ainda era a intrusa?
A mão de Yumi tremia quando ela a colocou sobre a mão de Icaru e ela sabia que o que dissesse, qualquer coisa que dissesse não seria sincero, então talvez fosse melhor não dizer nada, então talvez fosse melhor aprender a caminhar segurando aquela mão e aprendendo a ver quem ele era de verdade.
- Eu quero ver você, eu quero te ver de verdade - ela deixou seus olhos encontraram o dele e ele apenas assentiu, o silêncio os cobrindo assim como o anoitecer que finalmente caia.
Não precisaria de muitas palavras bonitas ou pensadas, agora havia algo novo para ambos, algo que eles descobririam por suas próprias pernas e veriam por seus próprios olhos, com suas próprias feridas, seus erros e acertos.
Esse se aproximou dela mais uma vez e então a abraçou, no fundo estava feliz por ela não ter dito nada, por não ter colocado sentimentos onde deveria apenas existir o silêncio e quando ela envolveu ele em seus braços ele percebeu que agora ela começaria a vê-lo, a ver somente ele.
Para quem quiser curtir a soundtrack da fiction: http://www.youtube.com/watch?v=2DpMPzu5SrM
sábado, 25 de fevereiro de 2012
..:: Tão perto ::..

(Todos os personagens dessa história são fictícios)
I've spent so much timeThrowing rocks at your windowThat I never even knocked on the front doorI walk by statues never even made one chipBut if I could leave a markOn the monument of the heartI just might lay myself downFor a little more than I hadThe last dayThe last dayThe last dayWait a time to spare these liesWe tell ourselvesThese days have come and goneBut this time is sweeter than honey
""Por todo tempo eu estive olhando pela janela
Desejando alcançar o lado de fora
Meus dedos tocavam os vitrais coloridos imaginando se o mundo lá fora também era assim
Mas nunca ousei tocar o fecho e empurrar aquelas folhas
Por todo esse tempo eu estive olhando pela janela e nada fiz
Assim a vida passou...""
Eu me lembro que quando era pequena havia uma grande janela com grossas cortinas encardidas.
Ela janela ficava numa sala onde minha família guardava quinquilharias, móveis antigos, brinquedos usados, ferramentas que todos sabemos que talvez (ou nunca) um dia iremos precisar. Aquela era a sala dos fantasmas.
Eu gostava daquele canto da casa, na verdade ele acabou tornando-se um dos meus cantos favoritos.
Sempre que queria ler e queria um lugar sossegado para fazer isso eu levava meus livros para aquela sala e me sentava abaixo da janela, o lugar mais iluminado daquele lugar e ficava ali até que o sol houvesse se escondido demais a ponto de eu não conseguir enxergar mais nenhuma das letras nas páginas.
Geralmente quando estava ali eu lia em voz alta, gostava de fazer caras e bocas imaginando as feições dos personagens das histórias que povoavam minha infância.
Um belo dia ao chegar na sala me deparo com um vulto na janela e sinto meu coração saltar no peito. Do lado de fora havia um homem, provavelmente meu vizinho. Mas o que ele estaria fazendo ali?
Chamei, mas não obtive nenhuma resposta e então me aproximei, sentando-me em meu lugar sob a janela e começando minha leitura. Talvez ele estivesse apenas cuidando do jardim dele, afinal aquela janela dava para o jardim vizinho.
Eram quase sete horas quando terminei minha leitura, tão distraída que já havia me esquecido do vizinho, tão entretida em interpretar às frases e os personagens que esqueci do intruso na janela, afinal ele estava ali em meu mundo sem ser convidado.
Quando me levantei olhei para o pano em tons de azul escuro e roxo pelo pôr do sol apenas para ter certeza de que ele já havia se ido e realmente fora o que acontecera.
No dia seguinte, logo após o almoço eu voltei para meu cantinho, com novos livros que havia comprado naquela manhã e alguns sanduíches que havia feito. Assim que entrei na sala empoeirada e cheia de objetos cobertos por lençóis me deparei novamente com o vulto na janela.
Isso aconteceu ao longo de toda a semana, de todo o mês e quase um ano depois, em uma manhã chuvosa, soube que meu vizinho morrera em um acidente de carro.
Entristeci-me sinceramente, estava acostumada à sua presença todos os dias nas janelas, às vezes acabava lendo um pouco mais alto do que costumava apenas para que ele ouvisse também. Não sabia se ele gostava do que ouvia, mas como todos os dias estava lá eu passei a me esforçar em minhas interpretações e às vezes até fazia perguntas, para as quais eu nunca ouvia uma resposta, mas nunca me sentia triste com isso.
Desanimada, fui para meu canto preferido da casa mas assim que encostei meus dedos na maçaneta dourada da porta desisti. Meus momentos de leitura que tanto me agradavam agora tinha perdido seu expectador e sua graça.
Passei um mês inteiro sem abrir aquela porta até que por fim o lançamento de uma nova história me cativou e como eu não poderia imaginar outro lugar para ler corri para a sala dos fantasmas e ao abrir a porta eu simplesmente congelei. Na janela, lá estava o vulto de meu vizinho fazendo sua sombra sobre as cortinas.
Pisquei diversas vezes, sentindo minhas mãos suarem enquanto o sangue parecia bombear em meus ouvidos.
Olhei para trás, para o corredor vazio e então tornei a olhar à janela. Imóvel, o vulto continuava em seu mesmo lugar, assim como eu.
Num impulso de coragem dei um passo para dentro da sala e então mais um e depois mais um, até me aproximar. Pensei em me sentar e ignorar aquilo, mas não conseguia. Meu medo e minha curiosidade cresciam a cada segundo enquanto em encarava as pesadas cortinas cerradas e o vulto por trás delas. Por todo aquele ano eu sequer havia visto seu rosto, ouvido sua voz. Para mim, nossas tardes onde eu lia deveriam ser mantidas em segredo, porque todos julgariam estranho eu passar a tarde toda com um desconhecido, contando-lhe histórias.
- O que está fazendo? - a voz da minha mãe às minhas costas me fez dar um salto e quando me virei deveria estar mais pálida do que qualquer fantasma de qualquer história de terror que já lera - Está pálida, não deveria ficar o dia todo nessa sala sem sol! - ela exclamou, aproximando-se de mim e da janela, puxando então as pesadas cortinas para o lado.
- Não! - eu gritei e derrubei meu livro no chão, jogando-me sobre mamãe como se fosse salvá-la de uma bala perdida, ela com certeza não estava vendo o vulto ali!
- Você enlouqueceu? - ela me perguntou, olhando então para a janela e rindo em seguida - O que? Vai me dizer que está com medo disso? - ela apontou e temerosa eu segui sua indicação.
Sim, lá estava ele, mas ao contrário do que pensei ele estava de costas.
Separei-me dos braços de mamãe e então me aproximei do vidro da janela, observando suas formas tão perfeitas molhadas pelo orvalho da manhã, sua superfície coberta pelo musgo esverdeado e por presentinhos que os passarinhos haviam deixado.
- ... - mal consegui responder mamãe, apenas encarando a estátua que ficava próximo à janela, formando o vulto agora no chão de madeira empoeirado.
Por quase um ano eu achara que estava conversando com alguém, dera vida àquela estátua e agora que descobrira a verdade me sentia perdida.
Milhares de coisas passaram por minha cabeça naquele momento, mas mesmo em minha infância, eu nunca pensei que havia perdido tempo com aquilo, com aquela amizade construída com o que para minha mãe era provavelmente um pedaço de pedra.
Sem hesitar, sai correndo da sala com meu livro em mãos e atravessei meu jardim, passando pelo vão da cerca que delimitava nosso terreno e parando quando alcancei o jardim vizinho.
Respeitosamente olhei em direção à casa, como se pedisse permissão e logo em seguida dei a volta para alcançar a parte detrás do jardim, onde estava a estátua.
Encarei seus olhos vazios por alguns segundos e então sorri, sentando-me diante dele e começando minha leitura.
É impressionante eu sei e até um pouco difícil de imaginar, mas agora aquela criação de pedra imóvel era meu melhor amigo e sem reclamar emprestou-me seus ouvidos por um longo tempo.
Tirei muitas lições que não julgo necessário relatar aqui, mas é claro que dentre todas essas lições sempre houve uma pergunta da qual nunca tive resposta. Quem ele era? Quem fora meu vizinho? Desde sua morte a casa permaneceu e permanece vazia. Será que ele também teria me ouvido? Será que ele também teria lido comigo?
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
..:: A Dama das Cinzas, Branca de Neve ::..

Era a mais bela do reino e era então filha do rei, um rei justo e digno que tomara por esposa uma mulher de índole indigna.
Diziam que era uma feiticeira, diziam que era uma cortesão, tudo o que diziam sobre ela eram injúrias, mas o rei estava cego em sua paixão e seus ouvidos estavam surdos pelas batidas de seu coração.
Era a mais bela e bondosa e era a filha do rei e tinha por madrasta a mulher mais bela e maldosa que em pouco tempo enegreceu de tal forma o coração do bondoso governante e escureceu sua visão, transformando-o em um tirano que do alto de seu trono nada via além de sua esposa e sua filha.
“Era a filha do rei e deve ser morta” – pensava a mulher todo dia ao acordar, enquanto penteava seus longos cabelos dourados como ouro dos tolos e seus olhos cinzentos de tempestade encaravam ao espelho que lhe respondia com a mesma frase.
“É a filha do rei e é a mais bela e a mais bondosa...”.
Aquela frase enfurecia o coração da madrasta, que a princípio tentou ensinar à menina suas magias nefastas e encantá-la com o dom da dama da morte, mas que agora sentia a inveja crescer, pois sem enganar à morte, Branca de Neve tinha em seu rosto o brilho da vida que a tornava perfeita e a pureza em seu coração que a tornava intocada.
“Traga um caçador cruel, que em seu coração não haja nada além da ânsia por dinheiro e poder” – ordenou então aos guardas reais e trouxeram à madrasta o mais terrível caçador.
Suas roupas guardavam ainda o sangue de sua última vítima e em seu pescoço havia um colar cheio de presas afiadas de suas vítimas.
“Quero que mate um cervo, é puro e saltita pelos jardins do castelo, irrita-me ver sua alegria!” – a mulher lhe ordenou e então apontou para o espelho.
Refletido, o homem não viu sua caretonha, mas sim a jovem filha do rei que brincava entre flores e pássaros.
“Leve-a para o bosque, diga-lhe que irão apanhar uma família de coelhos para lhe fazer companhia e então me traga o coração nesta caixa. Quando eu tocar essa caixa o coração se transformara em ouro e essa será sua recompensa” – anunciou a mulher, fazendo o homem cruel sorrir.
Era a mais bela e era filha do rei cego pelas trevas e era inocente como os cervos que saltitavam pela floresta. As palavras do caçador fizeram-na saltitar rumo ao bosque e alegremente ela colhia flores para enfeitar à toca dos coelhinhos que buscariam.
“Acha que vão me amar?” – seus olhos azuis como os céus encontraram os olhos frios do caçador e ele se viu refletido neles e então ele viu toda a beleza da alma pura, pois não são os olhos o espelho da alma?
“Não haveria de ser de outro modo” – ele disse, desviando o olhar da pequena e então se forçando a pensar no coração de ouro.
Andaram ainda mais para dentro da floresta e agora Branca de Neve colhia frutos para alimentar à família de coelhos.
“Acha que gostarão das maçãs que estou colhendo?” – ela perguntou, erguendo entre as mãos brancas uma maçã vermelha, oferecendo-a ao caçador e este se surpreendeu. Ninguém havia lhe dado nada gratuitamente e mais uma vez seu olhar enterneceu-se sobre o rosto da jovem.
“Não haveria de ser de outro modo” – respondeu mais uma vez o homem e apanhou a maçã, devorando-a, sentindo o sabor doce da fruta em sua boca tão amargurada.
E assim prosseguiram o caminho, até que em determinado momento ela abaixou-se para encher uma cabaça com água e lavar o rosto. Estava de costas, despreocupada com o caçador, a quem julgava um companheiro, mas mal sabia que o homem lhe apontava uma flecha.
Ao encher a cabaça de água virou-se para oferecer ao homem um refresco, quando então se deparou com a seta mortal, apontada em sua direção.
Sua expressão encheu-se de pavor e seu coração acelerou-se dentro do peito. Por que aquele homem queria lhe ver morta? O que teria feito de errado?
“Perdoe-me” – ela exclamou, ainda de joelhos diante do caçador e então abaixou a cabeça – “Seja o que for que lhe fiz de mal, me perdoe!” – era doce e suplicante sua voz, mas a seta rasgou o ar em sua direção, atingindo então uma serpente que se pendurava nos galhos da árvore inclinada sobre o rio.
“Tome cuidado princesa, há cobras onde menos imaginava” – alertou-lhe o caçador, enquanto a cobra peçonhenta caía do galho dentro das águas do rio – “Há uma grande cobra em seu castelo e ela deseja seu coração de ouro! Fuja princesa, fuja enquanto os olhos de vidros de sua madrasta não a alcançam!”
Ao fim da tarde, tendo apanhado o coração de um cervo e colocado na caixa, o caçador retornou ao castelo ouvindo então os gritos da madrasta enlouquecida após constatar que aquele não era o coração verdadeiro e lhe explicar que não seria capaz de matar ao anjo daquele castelo.
“Inútil!” – ela bradou, tirando de uma parte secreta das saias do vestido uma varinha encantada, apontando-a em direção ao homem que se transformou em pedra.
“Terei eu que fazer o serviço!” – exclamou a mulher irada e sem prestar satisfações ao marido enlouquecido que ria sozinho em seu trono a madrasta saiu pelas portas do castelo, transformando-se então numa velha senhora que carregava com postura encurvada uma cesta com as mais lindas maçãs.
Sua intuição guiada pela bruxaria e por mil demoniozinhos, lhe dizia que estava Branca de Neve numa casa onde sete homens pequeninos lhe faziam companhia. Eram os Sete Anões, os sete anjos que guardavam àquelas terras onde a maldade jamais chegara.
Pois a bruxa esperou que aqueles anjos enterrassem suas asas dentro das minas e que cobrissem suas asas com as cinzas da porta do inferno para aproximar-se de seu santuário e arrebatar-lhe a princesa.
Ofereceu-lhe a mais bela das maçãs e, saudosa das refeições fartas de seu palácio, Branca de neve fincou seus dentes no fruto considerado a perdição dos homens.
Engasgou-se e envenenou-se, seu corpo sem vida tombando no chão do santuário dos anõezinhos, a fruta da serpente rolando de sua mão.
Ao retornarem, os anões perceberam que a Dama Negra rondava à casa e numa perseguição inútil tentaram lhe alcançar, mas mesmo que a perseguição triunfasse o mal já estava feito.
Fragilizados, retornaram então para à pequena casa perdida no bosque, ainda a tempo de encontrar a morte levando a alma de Branca de Neve pela mão.
“Espere!” – um deles suplicou e correu até a alma da jovem, segurando-lhe a mão etérea, olhando-a nos olhos sem brilho – “Pois não dissemos que não abrisse à porta? Que não comesse o fruto proibido?” – ele lhe perguntou.
“Perdoem-me, desobedeci às ordens daqueles que queriam meu bem, daqueles que queriam me salvar, porque senti fome e o fruto pareceu-me belo” – ela explicou, sua voz soando em mil e um arrependimentos – “Deveria ter feito o sacrifício, mas agora tornei todos os esforços daqueles que tentaram por mim algo em vão. Pobre caçador, deveria ter lhe entregado um coração de ouro. Pobre papai, eu não fui capaz de remoer o véu sobe seus olhos e nem sobre os meus!” – ela exclamou, um pequeno soluço escapando de seus lábios.
Os sete anões abaixaram suas cabeças, não mais precisariam de avatares para se esconder, tornando-se então nos Sete grande arcanjos. Falharam, os humanos não conseguiam ver a escuridão encoberta pela beleza.
Quando à Dama Morte partiu levando Branca de Neve, construíram então um esquife de ouro e cristal e guardaram ali o corpo da jovem. Na lápide dourada, as inscrições:
“Não tome por puro aquilo que é somente belo. Não tome por sorte o que é na verdade a mão de Deus”.
Agora todos que passam pela floresta e pelas ruínas daquela casa onde a beleza e a pureza moraram por um dia choram ao se lembrar dos dias de glória de um reino que não mais existe, pois os anjos abandonaram aquele lugar e seu rei estava cego, deixando tudo nas mãos da inveja doentia de uma mulher que não conseguia compreender o que era amor verdadeiro.
sábado, 18 de fevereiro de 2012
..:: Livraria do Macaco Pensador ::..

A livraria do Macado Pensador reúne algumas das publicações dos autores que contribuem com essa página.
Com diversas opções de gênero, você pode encontrar um livro que com certeza vai agradá-lo e distraí-lo a qualquer momento!
O povo brasileiro não costuma ler muito, mas podemos mudar isso com pequenos hábitos.
Escolha um livro e o deixe na bolsa ou na mochila com que certeza a oportunidade de lê-lo surgira, seja no caminho para o trabalho, para a escola, durante uma viagem! Aproveite o feriado de carnaval e coloque em sua mala esse companheiro.
Tá certo que você com certeza pensara que sequer vai tirá-lo de lá, mas ai é que você se engana! Com certeza tera um momento em que você vai procurar relaxar e descansar e é nesse momento que você poderá ler seu livro. Sera uma viagem dentro de sua própria viagem, pode ter certeza!
Caso queria conhecer os trabalhos dos autores que colaboram com nossa página basta clicar aqui e clicar na capa do livro que o interessou para ser redirecionado ao site!
Tenham uma boa leitura e não esqueçam de curtir a página do Macado pensador ein!
