quarta-feira, 21 de março de 2012

..:: Breaking the Ice - Cap. III ::.. Losing Grip



Sara parou em meio ao corredor antes mesmo de ouvir as primeiras notas da música. Não, aquele não era o problema, ela até gostava da música, o problema era quem estava cantando. Ela podia sentir claramente a presença dele, ainda mais claro do que qualquer outra depois do encontro deles na pista de patinação, depois que Sara bebeu o sangue dele dando início a um laço que poderia se tornar poderoso.

Ela voltou a andar, respirando fundo. Quanto tempo o professor poderia demorar? Além disso Raphael Grifftis não estava sozinho na sala de música, Sara conseguia sentir a presença de algumas meninas, todas humanas, três ou quatro. Ele certamente estava se exibindo para que depois elas disputassem quem seria o lanchinho da noite.

Sara estremeceu. Ela sabia que aquilo era completamente errado e ela jamais caçara um humano, aliás ela jamais caçara, mas muitos alunos do turno da noite tinha aquele hábito e é claro que o vampiro inglês não seria diferente. Por sua vez, Sara tentava se manter com as pílulas e com as parcas vistas do pai, passando também a caçar pequenos animais na floresta, embora fosse tão desajeitada com isso que muitas vezes acabava ficando sem se alimentar.

Ela parou atrás das meninas que estavam diante da porta, eram três afinal, todas elas com uniforme do turno diurno e seus materias nas mãos, sequer sabiam do perigo que estavam, tão fascinadas com jovem de intensos olhos azuis e cabelos brancos que tocava violino para elas, o queixo pousado sobre a madeira lustrosa do instrumento. Ela sequer respiravam, temendo que o som de seus suspiros estragasse a apresentação.

Sara mordeu o lábio inferior e então deixou os ombros caírem, desanimada. Ia ter um preço alto, mas ela não podia deixar aquilo acontecer diante dos olhos dela. Como era mesmo que ele a chamava? Amante de mundanos.

Era exatamente isso o que Sara era, apaixonada por humanos, incapaz de feri-los porque sempre se lembrava de sua mãe, dos olhares destinados a ela, dos olhos mortos dos vampiros sobre os humanos. Como eles não podiam perceber?

- V-vocês não... - o tom saiu baixo enquanto ela erguia os olhos âmbar para as garotas, então ela recomeçou a frase, tentando colocar a intimidação que sabia que era capaz de por - Vocês não deveriam estar no dormitório? Eu vou chamar o monitor se continuarem aqui! - Sara cruzou os braços sobre o peito e ergueu uma sobrancelha - Como é? Querem que eu arraste vocês? - ela perguntou, estendendo os braços - Vamos!

As garotas reclamaram, mas havia algo em torno da outra que era um tanto assustador. Elas olharam para Raphael, ele havia parado de tocar e agora abria os olhos lentamente, como se acordasse de um transe e sua expressão mostrava que o que via diante dele não era exatamente o que queria ver. Tudo bem, Sara não se importava com aquele olhar cheio de raiva, ela o conhecia bem.

- Melhor irem garotas, eu posso tocar para vocês amanhã, posso tocar todas as noites que quiserem - ele sorriu, baixando o violino e o arco, um de cada lado de seu corpo e afastando os cabelos dos olhos com um gesto de cabeça - Não quero que tenham problemas por minha causa, principalmente você Audrey - ele olhou para uma das garotas, ela tinha longos cabelos cacheados e olhos azuis expressivos que ficaram ainda mais felizes por ser mencionada em especial.

- Tudo bem - ela retribuiu o sorriso de Raphael, corando e abaixando a cabeça, virando-se e olhando para Sara com um ar de desdém - Vamos garotas, depois a gente volta! - ela sorriu e acenou para Raphael, saindo com suas duas amigas pelo corredor.

Sara encostou-se na parede, cruzando os braços novamente, mas dessa vez ela não tinha uma expressão intimidadora, parecia mais travar uma briga consigo mesmo enquanto franzia o cenho, bufando em seguida.

Ela ergueu o olhar então a tempo de ver Raphael virar-lhe as costas e ir mais para dentro da sala de música, sua expressão enchendo-se de descrença. Ele não ia avançar no pescoço dela e nem lhe dizer nada? Ela ia escapar assim tão fácil depois de afugentar as garotas?

"Tudo bem então..." - ela pensou, caminhando para dentro da sala de música. Agora Raphael dedilhava notas sem nexo, como se estivesse afinando o violino ou qualquer coisa do tipo. Ela não entendia muito sobre aquilo e ela não perguntaria. Talvez se fosse qualquer outro ela sequer tivesse expulsado as garotas, mas ela sabia que ficar perto de Raphael Grifftis era algo perigoso demais e para piorar tudo ele parecia exercer uma grande influência principalmente nas garotas. Ele era sedutor, até mesmo no modo como falava, mas Sara sabia que tudo isso se desvaneceria quando estivesse sozinho com sua vítima, quando tivesse uma chance de fincar as presas no pescoço de alguma daquelas garotas, assim como ele fizera com ela, mas ao contrário dela, aquelas garotas não saberiam se defender.

Sara sentou-se num dos divãs, seus olhos correndo pela sala e por todos os instrumentos que havia ali. Um piano, um violoncelo, nada que realmente atraísse a atenção dela, no fundo ela só participava daquela aula para agradar ao pai, aprender algo mais "clássico" do que sua barulhenta guitarra. Ela suspirou desanimada, esperava aprender algo antes de morrer de tédio.

Ela se deixou escorregar pelo sofá, ficando praticamente deitada na poltrona, suas pernas quase completamente para fora do acento enquanto seus olhos vagavam pelo papel de parede florido do lugar. Papel de parede, aquele lugar deveria ser mesmo muito antigo.

"Saco..." - ela pensou, olhando então para as próprias mãos cruzadas sobre a barriga e batendo os pés no chão. Havia se desligado completamente da presença de Raphael, era tão fácil na maioria do tempo quando ele não estava sufocando ela com seu olhar ou então ocupando todo o espaço, como se quisesse contrariar alguma lei da física e provar que duas pessoas podiam ser ocupar o mesmo lugar. Oh sim, isso era bem típico de alguém tão egocêntrico, querer contrariar e forçar sua vontade.

- Pffff... - o ar escapou de seus lábios e ela se ajeitou no sofá, inclinando-se para frente e apoiando os cotovelos no joelho, seus olhos então notando o violão quase escondido por uma das poltronas. Um pequeno sorriso fez a pontinha de seus lábios se curvarem. Violão. Aquele instrumento lhe trazia tantas lembranças.
Ela se levantou e atravessou a sala com passos largos, sem se preocupar em manter elegância ou qualquer coisa como era típico das garotas da Night Class. Não havia ninguém a impressionar ali e ela sabia que sua atitude irritava Raphael e ela sinceramente achava que ele lhe dava importância demais, mas assim eram os vampiros porque ela também estava pensando em como cada movimento que ela fazia estaria irritando ele.

Sara inclinou-se sobre a poltrona e então tirou o violão de seu apoio, sentando-se no braço da poltrona e trazendo o violão para seu colo. A madeira tinha um cheiro forte e mesmo que ela não se interessasse por aquele tipo de coisa era tão óbvio que aquele violão era uma peça valiosa que ela quase se sentiu culpada por tê-lo arrancando de qualquer forma do apoio, mas a única coisa que ela sabia era tocar, não era nenhuma avaliadora ou nada assim, só fazia aquilo para se divertir.

- É quase patético ver você segurando isso - a voz de Raphael a interrompeu enquanto ela ajeitava o violão no colo e posicionava inconscientemente as mãos sobre as cordas.
Ela desviou o olhar para ele, a longa franja caindo sobre os olhos e ela deu de ombros. O que ela poderia dizer? Se ele achava patético era só se virar sobre os calcanhares e dar as costas, sair da sala e aproveitar o momento para deitar e morrer.

- Mas já que está se dispondo ao papel ridículo - ele estava em pé e limpava o violino com uma flanela amarela - Por que não mostra o que sabe? - ele propôs e Sara semicerrou os olhos.

Ela sabia que mesmo que tocasse o melhor que soubesse Raphael jamais a elogiaria, não havia porque fazer isso, mas mesmo assim ela passou a mão pelas cordas. Não estavam afinadas então ela dedilhou uma a uma enquanto apertava as tarrachas até que as cordas estivessem afinadas e então passou a dedilhar uma música, mas logo desistiu, olhando o violão no seu colo. O que tocar afinal?

Ela passou a língua pelos lábios e então voltou a posicionar os dedos sobre a corda e logo as primeiras notas de Sweet Child O'mine encheram a sala de música enquanto Sara fechava os olhos, deixando-se levar pela música.

Em sua mente ela estava em alguma praça da Espanha sentada na grama com os amigos depois de sete aulas chatas de assuntos que eles só decoravam para tirar boas notas. Eles estavam rindo, não havia porque ser diferente. Semana de prova, fora uma daquelas semanas chatas de prova mas era sexta feira e eles estavam todos ali com latas de refrigerantes e cadernos espalhados, alguém havia trazido um violão e logo eles cantavam desafinados, fazendo as pessoas que passavam à volta rirem. Ridículos, mas quem se importava?

Ela mesma tocara uma música, aquela mesma música que ela estava tocando naquele lugar tão distante de sua Espanha. Whistler era, na opinião de Sara, o lugar perfeito para a Academia, era tão frio quanto as pessoas que ocupavam o dormitório do turno noturno, estavam tão distante de Madrid e todas aquelas diferenças só faziam Sara sentir ainda mais saudades.

Os amigos que enchiam sua casa praticamente todas as tardes depois das aulas, o carinhoso caloroso dos pais que sempre iam espiar o que eles estavam fazendo no quintal dos fundos. Os pais, até eles haviam sido privados da Espanha pelas coisas que estavam acontecendo, coisas daquele mundo frio dos vampiros.
Agora Sara entendia perfeitamente porque eles passaram toda a vida tentando mantê-la distante daquela atmosfera. Era tão pesado, era demais e tinha tão pouco a oferecer.

Ela abriu os olhos, seus olhos castanhos lembravam a terra macia, quente e úmida e encontraram os olhos de Raphael, o azul frio que demonstrava tudo o que havia por dentro e por fora daquele vampiro, um iceberg pronto a esmagá-la. Ele tinha um sorriso dúbio e ela tornou a fechar os olhos antes que o modo como ele a encarava a fizesse desistir de terminar a música.

Mais lembranças, as amiga e os amigos que a esperavam todas as manhãs na porta do colégio, que não a olhavam como se ela fosse um alienígena, mas como se ela fosse a melhor de todos ali. Todos a adoravam, ela era popular, mas não se gabava disso. Fazia parte de alguns clubes do antigo colégio e mesmo que, graças a sua maldição, ela fosse uma das meninas mais bonitas da escola, ela nunca humilhou qualquer um por isso. Ela definitivamente não conseguia entender como eles podiam agir assim, como podiam recriminar o amor que os pais dela sentiam? Como podiam recriminá-la sem sequer conhecê-la e como poderiam haver outros como ela que aceitavam e achavam isso certo? Não, mas ela tinha que concordar que os humanos também tinha seus podres, ainda assim eram tão frágeis que...

Ela parou a música. Ela não queria mais pensar nisso, aquele lugar definitivamente a estava enlouquecendo. Sequer olhou para Raphael, tudo o que fez foi virar o violão para baixo e usando-o como mesa de apoio sacou o celular do bolso e o colocou sobre ele. Fazia uma semana que não postava nada em seu Facebook, as matérias da nova escola eram mais difíceis e tomavam mais tempo, mais uma vez ela tinha que decorar coisas que nunca usaria apenas para conseguir nota. Ela acessou à página da rede social e então se surpreendeu ao ver o número de notificações. Seus amigos haviam postado dezenas de fotos da festa de despedida dela, fotos que, com um sorriso doce no rosto, Sara via uma a uma, rindo sozinha, colocando a mão sobre a boca. Ela havia esquecido completamente de seu espectador, mas havia vezes em que Raphael ficava tão imóvel que poderia muito bem se passar por uma estátua.

Ela passou bons minutos olhando tudo, seus olhos úmidos pelo sentimento de saudade que agora se tornava maior. Quem era ela ali naquele lugar cercado de montanhas e gelo? Nada, uma mestiça como eles gostavam de deixar claro, mas quem ela era em Madrid? Sara, filha de Fernando e Clara, a melhor aluna do colégio Navarro, cheia de amigos que estavam cheios de saudades dela.

Ela deslizou os dedos pela tela e então passou a digitar uma mensagem, dizia que estava com saudades e que queria voltar o mais rápido possível. Estava ansiosa pelas férias e detestara a escola nova. Não, ninguém tão Canadá era tão divertido quanto qualquer um de seu grupo de amigos.

As respostas vieram em poucos segundos e logo haviam mais de cinqüenta comentários, todos perguntavam quando ela voltaria, porque havia ido tão repentinamente. Ela não pudera explicar, não pudera se despedir apropriadamente, a festa fora feita às presas numa lanchonete dentro do aeroporto.
Mas dentre todos os comentários um surpreendeu ainda mais a garota. Fernando Augustine.

Os olhos de Sara encheram-se de lágrimas e ela não acreditou quando viu a foto dos pais e o comentário: Estamos com saudades filhota, de você e da Espanha.
Seu pai havia aprendido a mexer no Facebook? Quando? Ela não pode deixar de rir enquanto passava as costas das mãos sob os olhos, sentindo o peito doer ainda mais. Como ela queria estar com ele ensinando tudo que podia ensinar sobre computadores e internet. Certamente sua mãe quem o incentivara a isso, afinal Fernando era do tempo que sequer existiam máquinas de escrever.

"Ah papai... como eu queria estar ai com você, você deve ser tão engraçado digitando..." - ela suspirou, talvez devesse ligar para eles. Se ele estava na internet então não estava ocupado.

Sara deslogou-se da rede social e então acessou ao teclado numérico do aparelho, seus dedos digitando rapidamente os números do celular do pai, o tom de toque deixando a menina ainda mais ansiosa, fazendo-a levar a unha do polegar à boca e roer.

- Hola, Fernando Augustine hablando - a voz do pai fez o rosto de Sara corar enquanto como uma menininha boba ela retirava o dedo da boca e começava a falar.

- Papa... - ela chamou e sua voz trazia não só respeito, mais uma feto desmedido. Ela se virou de costas para Raphael, falando em espanhol com o pai por alguns minutos, dizendo que não estava triste com a escola, mas que sentia falta dos antigos amigos. Mentira dizendo que não tinha problemas, pois não estava ali seu maior problema observando-a, ouvindo cada palavra que ela dizia ao pai. Talvez com sorte ele não soubesse espanhol.
Amigos? Ah sim, ela fizera amigos e estava se dando bem com todos claro, não, não estava com sede e não estava tendo problemas com os outros vampiros, eram todos amáveis. Sem exceção.

Mentir só não fora tão difícil quanto ter que desligar o telefone e despedir-se de seu pai sem poder falar com a mãe. Havia saído, voltaria dentro de algumas horas. Talvez Sara pudesse ligar mais tarde, ela certamente ligaria, ainda mais depois que o pai dissera que Clara visitava o quarto da filha todas as noites, tão saudosa quanto ela. Cada noite Sara desejava estar de volta naquele quarto, sob a proteção de seus pais, mas estava sozinha e tinha que se contentar com isso.

Quando desligou seus ombros caíram e ela deixou-se cair novamente no sofá, olhando o violão que havia deixado virado sobre o braço da poltrona a frente. Só então ela se deu conta que Raphael não estava ali. Onde ele teria ido? Ela sequer notara que ele saíra.

"Talvez seja melhor eu ir também, acho que a aula de hoje foi cancelada" - ela levantou-se do sofá e guardou o telefone no bolso. Teria cerca de uma hora ainda pela frente, uma hora vaga, então decidiu aproveitar o momento para ver as fotos que os amigos postaram com mais calma.
Sara foi até o terraço, o vento frio que soprou quando ela passou pelas portas duplas a fizeram estremecer e se encolher dentro do casaco do uniforme, mas não havia o que temer, não havia ninguém ali.

"É só o frio..." - ela pensou enquanto caminhava pelo piso e se aproximava da beira. O quarto andar do prédio principal dava uma visão privilegiada de toda a Academia e era um dos lugares preferidos de Sara, principalmente para ver o nascer do sol.

Ela foi para a ponta esquerda do terraço e então sentou-se num velho banco de ferro que havia ali, colocando as pernas para cima, ficando praticamente deitada enquanto via as fotos. Ela fez questão de comentar em cada uma das fotos que sua amiga Camile postara e mais uma vez as respostas vieram rápido. Perdera um bom tempo naquilo, sequer vira a hora passar.

"Quase duas da manhã, talvez seja melhor eu voltar para o dormitório..." - ela pensou enquanto se levantava do banco, guardando mais uma vez o celular que estava praticamente sem bateria e então caminhando em direção às portas duplas, mas mal as havia alcançado quando sentiu a presença de Raphael, mas ele não estava sozinho.
O instinto fez Sara se esconder atrás de uma das pilastras, vendo então o vampiro e a humana de mais cedo. A garota parecia um tanto zonza e Raphael a levantou e a apoiou diversas vezes. Daquele modo a jovem morena mais parecia uma boneca de panos do que qualquer outra coisa.

Demorou poucos segundos mas logo Sara sentiu o cheiro doce que se espalhava pelo ar, um cheiro que fez sua garganta arder e seus olhos se acederem. Ela arfou, colocando a mão sobre a boca e se apertando contra a parede.

"Não..." - a mente de Sara estava prestes a entrar em pânico. Raphael estava atacando a humana e era melhor Sara controlar sua sede e fazer alguma coisa, ela jamais poderia compactuar com aquilo.

- ... - ela saiu detrás da pilastra, as mãos fechadas em punhos, no exato momento em que o vampiro erguia a humana desmaiada nos braços e a jogava pela murada do terraço. Os olhos de Sara se arregalaram e ela cambaleou para trás da pilastra novamente, seus joelhos tremendo enquanto ela escorregava escorada pelo pilar de concreto - ...meu...Deus... - a voz saiu num fio. Raphael havia simplesmente jogado a garota de quatro andares, ele havia matado Audrey mesmo sabendo todas as conseqüências que aquilo poderia trazer. Logo o cheiro de sangue ia se espalhar, logo os outros vampiros seriam atraídos - ...não... - Sara conseguia ver os olhos vermelhos surgindo na escuridão do jardim, encarando o corpo sem vida. Seriam capazes de começarem um festim macabro? Ela estava morta afinal... Resistiriam ao sangue? Desperdiçariam aquela chance?

Ela fechou os olhos apertados, querendo afastar aquela imagem terrível da mente e quanto os abriu se deparou com um par de sapatos pretos que subiam por calças pretas e então aquela pesada jaqueta de couro. Sim, ela conhecia muito bem aquela jaqueta.

- O que está fazendo aqui? - a voz dele saiu baixa mas cortante enquanto ele se inclinava sobre ela e a puxava para o braço, obrigando-a a ficar em pé. Seria fácil, mas seus joelhos ainda tremiam - Está surda? - ela a sacudiu e ela o olhou, seus olhos enchendo-se de medo e raiva, aquela mistura que parecia atiçar ainda mais Raphael Grifftis, parecia satisfazê-lo.

- S-seu... monstro! - ela cuspiu a palavra, olhando então para a mão fria que apertava seu braço num aperto de ferro. Os dedos pálidos afundavam no tecido do caçado sem dó alguma - O...o que você fez...? - ela tornou a olhá-lo e ele limitou-se a empurrá-la contra a parede com força.

- O que você viu? - ele perguntou, se aproximando mais dela e segurando seu queixo. Mais marcas, da última vez seus dedos ficaram impressos no rosto dela por toda uma tarde. Ele deslizou os dedos pela bochecha dela, erguendo ainda mais seu rosto, num aperto nada gentil que a fez trincar os dentes - O que acha que viu? - ele aproximou o rosto do dela, seus narizes se tocando.

Ela ergueu imediatamente as mãos e segurou os pulsos dele, usando toda sua força para repeli-lo, para fazê-lo soltá-la, por sorte não era tão mais fraca do que ele, ou ele simplesmente não queria lutar, não naquele momento, pois soltou seu rosto.

Ainda assim Raphael Grifftis continuava próximo demais, de uma maneira perigosa. Seu corpo praticamente esmagava Sara contra a parede e agora ela matinha as duas mãos sobre o peito dele, tentando manter uma distância mínima entre os dois.

Ele a olhou e riu, mais uma vez seu brinquedinho estava desesperado e mal podia lhe responder. Era sempre assim, Sara sempre se desesperava com facilidade e isso a fazia agir de modo impensado, complicando-a ainda mais. Era definitivamente mais divertido enlouquecê-la como naquele momento do que matá-la. Talvez quando enjoasse, mas naquele momento não.

- Vem! - ele segurou o pulso dela com força e praticamente a arrastou. Ela tentou parar, mantendo os pés firmes no chão, mas com um puxão Raphael a trouxe para perto, seu braço livre envolvendo a cintura dela enquanto ele soltava se pulso e segurava seu pescoço.

- Como vai ser Sara? Eu posso machucá-la de verdade, de um modo que eu ainda não tentei com você. É o que quer? Como você vai voltar para seu papai depois? - ele a olhava nos olhos, deixando os longos dedos envolverem o pescoço dela, ficando as unhas na pele macia e quente, tão diferente da dele. Raphael não sentia o calor, ele não sabia mais o que era calor.
Sara ergueu as mãos mais uma vez para tentar se livrar do aperto dele, seus olhos agora perfuravam os de Sara, mas ainda assim ela insistia em encará-lo.

- Quer cuspir em mim de novo? Não, eu vou ocupar sua boca mais uma vez - ele disse, subindo a mão do pescoço dela sem sequer parecer afetado pela dor que os arranhões que ela fazia em seu pulso causavam. Ele agarrou o rosto dela, afundando as unhas na pele e puxando para baixo, deixando quatro longos risco vermelhos, dois de cada lado, olhando então os dedos sujos com o sangue quente da vampira, quase tão quente e tão doce quanto sangue humano, tão imaculado que Raphael sentia-se cada vez mais tentado. Ele queria destruí-la, mas faria isso aos poucos.

- Agora vem! - ele se afastou e então ergueu algo em sua mão, algo que calou qualquer protesto de Sara.

Reluzindo sob o luar, o aparelho celular de Sara brilhava na mão de Raphael, fazendo Sara encará-lo com a boca entreaberta, perguntando-se quando ele havia pego aquilo.

Era tão claro, seu rosto latejando e doendo a distraíra quando ele a abraçara e agora o bem mais precioso dela naquele lugar estava ali entre os dedos do outro vampiro.

- Vem... - ele sorriu, expondo uma parte de seu sorriso, os cabelos caindo sobre os olhos conforme o vento varria o lugar, mas Sara sequer reparava em sua imagem, seus olhos continuavam fixos no aparelho nas mãos dele, enquanto por dentro ela sentia-se quebrar.

- Por favor... - ela olhou então para ele, cambaleando para frente, tentando apanhar o celular, mas ele desviou para o lado, rindo da tentativa inútil da vampira.

- Vem e eu te dou, primeiro você precisa fazer algo, uma coisa que vai me dar a certeza de que você vai ficar bem quietinha sobre nosso segredinho - ele colocou um dos dedos sobre os lábios, notando então que ainda estavam sujos com o sangue da outra vampira. Sim, talvez ele até os lambesse se não soubesse do que Sara era capaz, mas ele não cometeria o erro duas vezes.

A Sara não restou nenhuma outra alternativa a não ser segui-lo, seus olhos ainda olhando uma última vez para o lugar onde ela vira Audrey ser arremessada, a sensação de fracasso tornando-se ainda maior, assim como a revolta. Por que ela não podia ser como os outros? Ter poderes como os outros?

Ela tratou de cicatrizar o rosto, limpando o que sobrara do sangue no casaco, tirando-o e o enrolando nos braços, ficando apenas com a camisa preta do uniforme. Onde estariam indo? O que importava afinal, ele certamente a deixaria a própria sorte como da outra vez.

Apenas os sons dos passos de ambos pontuou o caminho, Raphael acendera um cigarro enquanto cruzavam os cascalhos que ligavam o prédio principal ao dormitório noturno, pouco se importando com as regras do lugar.

Ele abriu a porta do dormitório e a esperou entrar, jogando a bituca de cigarro para fora antes de cerrar a porta.

- Lá em cima - ele apontou para as escadas que levavam aos quartos e Sara sentiu um nó se formar na garganta. O que ele poderia querer com ela? - O que? Não quer seu celular de volta? - Raphael sorriu de lado - Não seja tão estúpida, acha que eu vou querer o que com você? - ele passou a língua pelos lábios - Não, você sequer serve para isso, agora suba! - ele ordenou e Sara teria sentido o rosto queimar se não estivesse com tanto medo, tamanha a humilhação que as palavras dele traziam.

Ela subiu os degraus lentamente e ele pouco pareceu se importar com os passos lentos dela. Quando alcançou o andar superior Sara sentiu vontade de descer as escadas correndo. Não, naqueles meses todos ela não se aventurara fora do quarto em meio à madrugada, mas agora ela podia sentir o cheiro de sangue se espalhando pelos quartos, podia ouvir os gemidos cheios de luxúria, os verdadeiros alunos do turno noturno estavam sem máscaras, estavam sendo eles mesmos. Ela se abraçou, abaixando a cabeça e parando em meio ao corredor. Por que eles agiam daquele modo? O que havia de errado com todos eles?

- Anda! - um sussurro baixo soprou ar gelado em sua nuca e ela forçou a andar, mas os pés pareciam presos no chão - Vadia - ele a empurrou e ela bateu contra a porta de um dos quartos, afastando-se assustada, deixando o casaco cair, mas aquela era a porta do quarto dele - Entre - ele parou ao lado da porta e a abriu, puxando então Sara pelo braço para dentro.

Assim que entrou Raphael tirou a pesada jaqueta, jogando-a sobre a cama que estava totalmente bagunçada, o quarto em si estava totalmente revirado, como se houvesse acontecido uma luta ali e de certa forma houvera.

Sara conseguia reconhecer o cheiro de Audrey no quarto e agora imaginava o quanto a menina teria sofrido nas mãos do outro vampiro.

- O que Sara? Acha que ela sofreu? - ele riu, deixando-se cair de costas na cama - Ah Sara como pode ser tão ingênua? O que acha que ela veio procurar aqui? - ele se sentou num único movimento e apoiou os cotovelos sobre o joelho, encarando a menina que havia simplesmente se encostado na porta trancada - Ela teve o que queria e eu tive o que eu queria, uma troca bem justa, não acha? - ele sorriu, levantando-se e indo até ela, apoiando uma das mãos na porta atrás de Sara, deixando o braço se dobrar até que mais uma vez Sara não tivesse para onde correr, estivesse presa entre ele e a porta - E você Sara? O que você veio buscar aqui? - ele segurou o queixo dela, mas dessa vez sem feri-la, baixando o olhar até que seus olhos encontrassem os olhos cheios de mágoa dela.

- Sabe Sara o que mais odeio em você? - ele perguntou enquanto a encarava, o aperto começando a aumentar a pressão - Sua hipocrisia. Olhe para você, se tivesse visto como ficou ao sentir o cheiro de sangue. Olhos vermelhos, sedentos. Ah Sara, você queria aquilo também! Só não tem coragem de pegar, só fica tentando negar a você mesma quem é! Você é uma de nós Sara - ele se aproximou mais dela, sussurrando sobre os lábios trêmulos da garota - Você vai ceder mais cedo ou mais tarde Sara e seu papai não vai estar aqui para ajudar... Olhe para mim - ele se afastou e então aproximou ainda mais seu corpo, cada linha encaixando-se ao corpo de Sara, fazendo-a se apertar inutilmente contra a parede como um inseto esmagado - Cedo ou tarde você vai desejar...- ele ergueu a mão e a levou até a boca, mordendo a ponta dos dedos, os cortes logo começaram a sangrar - Desejar como nunca desejou - ele passou os dedos molhados pelo líquido púrpura sobre os lábios dela e os olhos de Sara se acenderam.

- Não! - ela tentou empurrá-lo, mas ele apertou ainda mais seu rosto e seu corpo.

- Shi shi... sem escândalos, ou vou tornar isso bem pior - ele afastou a mão e lambeu o próprio sangue, sua mão então descendo pela gola de sua camisa e abrindo dois botões - Venha, satisfaça seus desejos Sara. Você não vai matar ninguém, mas vai beber o sangue. Ainda está fresco, ainda está quente dentro de mim.

- ...não... - Sara fechou os olhos e virou o rosto, seus ossos estralando e causando uma dor intensa, mas ela não cederia dessa vez - não... - ela praticamente chorava, implorando que ele a soltasse, suas mãos passando a socar o peito dele, os sons ocos enchendo o quarto e o corredor.

Raphael soltou o resto dela e a segurou pelos dois ombros, batendo-a com força contra a porta, fazendo-a bater a cabeça, puxando-a então para o lado da parede e a batendo novamente contra o concreto.

- Vadia idiota! Acha que qualquer uma pode beber meu sangue? Beba logo ou vou enfiá-lo em você eu mesmo! - ele gritou contra o rosto dela. Pouco se importava se os outros ouvissem, o que fariam? Eles eram desprezados, quem viria salvar Sara? - Se não beber pode dar adeus aquela droga de celular, pode dar adeus a seus pais! Então, o que vai ser? - ele a soltou e Sara encolheu contra a parede.

Seus cabelos bagunçados cobriam o rosto ferido, um filete de sangue escapava pelos lábios, com as pancadas havia mordido a língua o mordido os lábios, agora eles sangravam espalhando o cheiro doce do sangue dela no ar, o cheiro sobrepondo-se ao cheiro de Audrey.

Então era por isso que ele a levara ali? Para encontrar as pistas?

Ela ergueu os olhos para ele, como um animal ferido e sem escolhas, tudo o que ela podia fazer era o que faria naquele momento. Suas mãos trêmulas subiram pelo peito de Raphael, os dedos enroscando-se na gola da camisa dele enquanto ela se aproximava lentamente, desviando o olhar para a veia.
Sara entreabriu os lábios feridos, passando a língua por eles, sentindo-os arder, assim como seu rosto ardeu quando as lágrimas passaram a descer. O que ela podia fazer afinal? Simplesmente morrer?

Os lábios dela tocaram a pele fria de Raphael e logo deslizavam sobre o pescoço dele, sua língua descrevendo uma linha horizontal, onde suas presas afundaram lentamente segundos depois. Por mais ódio que sentisse dele ela não conseguia feri-lo, não conseguia rasgar o pescoço dele com seus dentes e causar-lhe dor, simplesmente porque aquele era o único modo como ela sabia morder.

No instante seguinte os lábios dela sugavam a pele dele, puxando o sangue que logo vertia para sua boca. Um mistura confusa de imagens se desenharam em sua mente enquanto Raphael se aproximava mais, um dos braços envolvendo a cintura dela e a empurrando para trás, até que ela encostasse na parede novamente. Como se ela fosse capaz de fugir para qualquer lugar, até parece.

Ela afundou mais as presas na pele fria do outro vampiro e ele gemeu, o braço na cintura de Sara estreitando-se mais.

Mais cenas confusas, borrões que lembravam a imagem de Audrey, o caminho que ela fizera até ali, risadas abafadas, o momento em que a porta do quarto se fechara, o momento em que ela se deitara com Raphael, tudo em cenas confusas que deixaram Sara ainda mais confusa.

As mãos dela pareceram ganhar vida, subindo pelos ombros de Raphael, os dedos enroscando-se nos cabelos platinados do vampiro enquanto um gemido abafado escapava de Sara. Outra barreira rompida, um passo a mais no caminho da escuridão que a cercava, algo que cobraria um preço alto depois.

A mão dele subiu pelas costas de Sara e ela estremeceu quando ele passou a perna por entre as pernas dela e a apertou mais contra a parede. Era apenas impressão ou ele havia virado o rosto?

Ela descravou as presas do pescoço dele, inclinando a cabeça para trás, seria aquela sensação gelada sobre sua pele os lábios dele? Os dedos dela se fecharam com mais força, arranhando a nuca dele, arrancando mais um gemido de Raphael.

Que sensação era aquela? Algo tão desconhecido que a fazia se sentir zonza enquanto o sangue dele descia por sua garganta, molhava seus lábios, e ele estava ali, tão próximo ao pescoço dela.

- ... - como se acordasse de um transe Raphael se afastou dela, empurrando-a contra a parede, fazendo-a encará-lo assustada. Os olhos vermelhos fuzilavam Sara e a respiração dele saia praticamente em bufadas - Vadia! - ele disse entre os dentes trincados, segurando-a então pelo braço enquanto abria a porta - ...vagabunda! - ele praticamente cuspiu o xingamento enquanto a jogava para o corredor, fechando a porta com força em seguida, o estrondo ecoando por toco o corredor enquanto a parede estremecia.

Sara olhou em volta assustada, mas não havia ninguém do lado de fora. Ela abraçou-se, ainda atordoada com tudo o que havia acontecido e sem opção melhor ela rastejou seus passos até seu quarto, parando em meio ao corredor para pegar seu casaco caído, seu quarto era do outro lado do dormitório, longe o suficiente de Raphael, mas talvez nem o lugar mais isolado do mundo fosse ser longe o bastante agora.

Seu peito doía como se algo ali estivesse quebrado, cada respiração a feria mais, mas ela sabia que era apenas o sangue de Raphael misturando-se ao seu, mesclando-se de uma forma que jamais poderiam ser separados novamente.

Ela entrou no quarto, seu dedo deslizando pela maçaneta como se ela fosse pesada demais, mas ela cedeu mesmo assim. Por sorte sua colega não estava, ou se assustaria ao ver praticamente um zumbi passando pela porta.

Sara jogou-se na cama e puxou o cobertor, cobrindo até sua cabeça, logo o som de seus soluços povoaram mais uma vez o quarto. Havia bebido o sangue dele mais uma vez, havia desejado aquilo e havia descoberto mais uma nova sensação, algo que queria que saísse de sua mente, mas a pele de seu pescoço ainda ardia onde os lábios dele havia tocado. Por que? Por que aquilo estava acontecendo?

O pior de tudo era que fora totalmente despropositado, afinal ela fora expulsa do quarto dele e ele não lhe devolvera o celular.
Sozinha, embalada pelos próprios soluços, Sara acabou adormecendo, exausta pelas sensações que agora corriam em seu sangue, exausta pelo peso de seu próprio pecado. Agora ela estava perdendo o controle.

terça-feira, 13 de março de 2012

..:: Breaking the Ice - Cap II ::.. Por que?


Então a morte era fria? Ela corria por suas veias e ao invés de impulsionar seus orgãos ela simplesmente congelava cada centímetro que percorria de seu corpo, levando tudo que você podia guardar dentro de você, levando você.
Sara sentia que sua existência estava se esvaindo a medida que o sangue de Raphael corria por suas veias, preenchendo-a, entrando em cada parte de seu corpo, em cada parte que ela queria manter oculta dele, mas o destino parecia que a expunha do pior modo possível, sempre colocando Raphael em seu caminho como se fosse algo inevitável.
No fundo seria mais justo morrer de arrependimento, afinal se ela pudesse escolher, ela nunca teria esbarrado nele na entrada da cafeteria, ela não teria dito nenhuma palavra sobre o quanto ele parecia idiota parado ali olhando a outra garota ir. Por que ele simplesmente não fora atrás dela?
Há quanto tempo aquilo acontecera? Um mês? Ela não sabia ao certo porque no fundo tudo o que ela queria era esquecer aquele episódio, esquecer que Raphael existia e que todas as noites ele era o ator principal numa série de pesadelos que ela tinha. Por mais que ela fingisse que ele não estava lá ela tinha a plena consciência de que ele estava, ela podia sentir no ar frio, ela podia sentir em tudo o que tocava, como se ele tivesse tocado antes apenas para deixar sua presença ali.
Naquela noite não foi diferente, enquanto calçava seus patins e encarava o gelo que fazia um vapor gelado subir, deixando a ponta de seu nariz e suas bochechas vermelhas, ela sabia que ele estava ali, sabia que estava a assistindo como um amante espectador, mas com certeza seus olhos não exprimiam nenhum sentimento relacionado ao amor.
Por que ele estava ali? Não era ela quem o estava procurando, não era ela quem estava querendo cruzar o caminho dele ao menos uma vez por noite desde o primeiro encontro. Ela queria ao contrário, ela queria que seus caminhos seguissem paralelos para sempre e que nunca mais se encontrassem.
Ela fechou os olhos e respirou fundo, tentando deixar sua expressão o mais neutra possível, fingindo que não havia sentindo a presença dele desde o instante em que entrara no rinque. Ela sequer precisava sentir, ela sabia que ele estaria ali.
Ela se levantou, sentindo os joelhos vacilarem e mordendo o lábio inferior, praguejando-se por dentro por deixar-se intimidar tão cedo pelo seu espectador. Tudo bem ele estava ali como todas as outras noites, o que isso poderia ter de diferente? Ele continuava a odiar ela do mesmo modo e ela tinha certeza que ele estaria se perguntando porque ela insistia em andar sobre o gelo. Provavelmente na mente egoísta e egocêntrica dele o único motivo para que ela fizesse alguma coisa assim era simplesmente o fato de poder pisar e riscar a perfeição gelada da pista, poder se sobrepor a ela, deixá-la sob seus pés, assim como ele provavelmente achava que ela gostaria de fazer com ele.
Era melhor esquecê-lo, ela estava ali para relaxar e não para deixar-se envolver por ele. O gelo que a envolvia nada tinha a ver com Raphael e ela não podia pensar nele por mais tempo do que já havia pensado.
Aos poucos ela ganhou velocidade e então alcançou o centro da pista, as luzes dos postes iluminando-a por completo, holofotes em seu palco de gelo. Ela pegou um novo impulso e fechou os olhos, deixando a sensação de praticamente voar a envolvê-la, esquecendo-se de Raphael, exatamente como desejava, mas ele estava ali e fazia questão de lembrá-la disso.
A pergunta dele fez o frio da pista subir para seu corpo, a sensação de uma pontada em seu estômago enquanto ela tornava a abrir os olhos e se virar nos patins, freando bruscamente, uma fina camada de gelo subindo na pista reta. Tudo o que ela via na arquibancada era apenas o ponto vermelho da ponta do cigarro, na posição em que estava os holofotes praticamente a cegavam para o resto, mas ela já conhecia o olhar dele. Ela odiava ao olhar dele.
- Quando você vai me deixar em paz? Seu egocentrismo barato já está me cansando! - ela sentiu o ódio queimar nas veias quando ele a chamou de amante de mundanos. Quem ele pensava que era? Ele era o filho de uma humana, como ela, mas ele não podia aceitar isso.
Sara passou as mãos pelos cabelos, tetnando se acalmar com aquele gesto, sua mão caindo distraidamente para o pescoço, exatamente no ponto onde ele a havia mordido naquele fatídico primeiro encontro. Ela sentiu a pele arder, como se mais uma vez os lábios dele passeassem ali e ela sentiu vontade de passar as unahs pela pele, de ferí-la novamente apenas para se livrar daquela sensação.
Outra frase dele e Sara sentiu uma onda de desânimo invadí-la, deixando as mãos cairem ao lado do corpo enquanto tentava encará-lo, sentindo o frio arder em seu rosto numa estranha espécie de febre. Ele estaria fazendo algo ou era só o fato do contraste entre a luz quente e forte dos holofotes da quadra e do frio contra o corpo dela?
Ela deixou um suspiro cansado escapar por seus lábios, mordendo o lábio inferior em seguida. Ela não queria respondê-lo, ela não queria dizer que o culpado de tudo aquilo era ele com toda sua arrogância. Ela queria dizer que eles eram iguais e se ele queria respeito das pessoas ele também teria que dar respeito e isso era algo que ele não parecia disposto a fazer.
Talvez se ela tentasse naquele momento pedir as desculpas que pensou em pedir. Não, ela pensava naquilo toda a vez que amanhecia e quando chegava na metade do dia o ódio por ele já estava queimando em suas veias a tal ponto que ela só conseguia pensar em como ofendê-lo.
"Papai... mamãe... me perdoem... você vão ficar tão decepcionados..." - ela deixou a franja cobrir seus olhos castanhos, talvez tivesse mais chances se Raphael não conseguisse ver todas as grosserias que ela estava pensando em lhe dizer em seus olhos.
"Você... quem é você Raphael? Quem é você se não o filho de uma humana e um vampiro? Um mero mestiço, assim como eu? Quem é você afinal que acha que tem o poder de um puro? Como eu gostaria que você mordesse a língua e se engasgasse com seu próprio veneno... como eu gostaria de te matar!" - seus pensamentos gritavam e ela fechou as mãos em punho. Apesar de tudo sabia que nunca seria capaz de matá-lo, Sara era incapaz de ferir alguém, ela não fora criada para viver no mundo em que Raphael vivia. Ela respirou fundo mais uma vez, era melhor responder vossa majestade.
- Eu não faço parte da sua vida, nunca vou respeitá-lo! - fora o melhor que conseguira afinal, estava muito longe de tudo o que queria realmente dizer, estava muito perto da realidade. Ela não fazia parte da vida dele, do mundo dele e ela nunca entenderia um mundo tão injusto quanto aquele.
Ela se virou, era o fim da entrevista, seu rosto doía pela sensação de quente e frio e seu peito ardia pela raiva que sentia dele, era melhor parar enquanto ela ainda estava sobre as próprias pernas, enquanto ele não descia até ela e tentasse colocá-la no lugar que ele achava que ela deveria estar.
- Quem é você afinal? - ela deixou o sussurro escapar de seus lábios, mas ele com certeza não ouvira.
Seu corpo estremeceu, mesmo de costas ela podia sentir o olhar dele, ela podia imaginar como ter virado as costas havia ferido o ego daquele ecogênctrico idiota e como ele deveria estar contando até dez para pular ali na pista e arrancar as respostas da boca dela, do pior modo possível.
Ela tornou a fechar os olhos, deixando seus passoa a guiarem sem rumo pela pista. Sabia os limites, já havia decorado cada esquina daquele lugar, sabia onde tinha que virar e até onde poderia ir para ficar longe o bastante dele, longe o bastante para que ele simplesmente deixasse de existir e ela pudesse se fechar em seu próprio mundo.
Mais uma vez, como se adivinhasse exatamente o momento em que os pensamentos de Sara se desprendiam dele, ela ouviu a voz de Raphael, próxima, a fazendo estacar, abrir os olhos assustadas enquanto o via surgir em meio a névoa que sobria a pista. Ela engoliu uma longa golfada de ar, sentindo o peito doer pelo frio. Ela encolheu os ombros, ela sempre se encolhia quando ele estava assim tão próximo, o medo inconsciente que tinha de morrer e decepcionar os pais, o medo inconsciente que tinha da dor que o simples toque de Raphael provocava. Ela nãoe scapou aquela sensação.
As mãos dele envolveram seus braços e mesmo sob a pesada blusa de lã que usava ela sentiu a pele arder, como se estivesse em contato com o gelo da pista, como se estivesse em contato com a pele dele. Tão frio, tão doloroso. Um gemido baixo escapou de seus lábios, a dor parecia avançar até seus ombros e depois até as pontas de seus dedos. A próxima frase dele deixou claro o quanto ele estava irritado, o quanto estava cheio de ódio por ela.
– O que você quer de mim? Para de me infernizar, se quer me matar, porque não mata logo? Idiota! - ela tentou num movimento inútil erguer as mãos, agarrando as abas da jaqueta que ele usava, era a mesma jaqueta do primeiro dia, ela nunca esqueceria aquilo. Seu corpo todo tremia, tanto pela dor quanto pela raiva. Por que ele simplesmente não terminava com aquilo de uma vez? Por que não aproveitava que estavam apenas o dois e então arrancava o coração dela. Em poucos segundos ela seria apenas um monte de cinzas no chão.
Ela o encarou, engolindo toda a saliva que se juntava em sua boca. Ah como queria cuspir naquele rosto,a quele rosto que tantas garotas achavam perfeito e ela só conseguia repudiar.
Ela recuou o rosto quando ele se aproximou para responsdê-la, para dizer que ela era o brinquedinho dele, como se ela não soubesse disso, como se não fosse humilhante demais saber disso.
O hálito dele bateu frio contra o rosto dela, fazendo-a fechar os olhos por um segundo para abrí-los em seguida, o encarando com raiva. Ele tinah razão, não importava quanto ela escondesse, ele sempre conseguiria ler no olhar dela o que ela sentia por ele.
Ela sentiu seu estômago se apertar quando encontrou o olahr dele, sentiu que todo o ódio que sentia parecia se juntar em sua garganta,fazendo-a arder, fazendo-a se esquecer de tudo por um momento. Ela não queria mais ser o brinquedo dele, ela queria colocar um fim atudo aquilo. Um mês, um longo mês com ele a cercando de todas as formas, sem nunca atacar, sem nunca atacar de verdade.
Ela recuou o rosto e então o impulsionou para frente, cuspindo no rosto dele com toda a força que conseguia, sentindo os lábios rachados pelo frio arderem pela saliva quente, tão quente quanto o ódio que ela sentia por ele. Ela sabia que aquele seria seu fim, se ele nunca atacara, agora com certeza ele iria atacar, mas ao menos aquilo teria um fim.
A pressão do aperto em seus braços aumentou, fazendo seus ossos estralarem, sua carne parecendo ceder ao aperto do vampiro, ao gelo de seu toque, a dor subindo em uma única vez, fazendo seus joelhos fraquejarem.
Os gritos de dor escparam antes mesmo que ela pudesse contê-los, afinal dar a Raphael o gosto de ouví-la sentir dor era a última coisa que ela queria.
Ela escorregou nas lâminas dos pastins, seu corpo sendo deitado lentamente sobre o gelo, sentindo então ele prender as pernas dela com uma única perna e prender seus pulsos com facilidade, como se ela não fosse como ele, agora que ele estava ali sobre ela ela tinha certeza de que ele não era.
Ela o olhou aterrorizada, toda a coragem que a impulsionou ao ato agora havia se esvaído e dado lugar ao frio que ela sentia envolvê-la e que tornava tudo pior.
- Não! Não! - ela gritou desesperada, implorando para que ele não lhe fizesse nada, para que lhe desse ao menos uma chance, se é que ela tinha alguma chance.
Ele se aproximou, prendendo o olhar dela ao seu, impedindo-a de virar o rosto. Silêncio, ele sequer respirava enquanto a encarava daquele modo, enquanto a raiva e o ódio que ele tambéms entia por ela dançavam em seus olhos infinitamente azuis. Eles seriam capazes de encantar qualquer garota, mas para Sara eles significavam apenas a morte. No fundo, uma aprte dela desejou ler a mente dele, o que estava passando pela cabeça de Raphael agora que ele estava prestes a matá-la.
Ela estremeceu quando os lábios dele finalmente se moveram e ele a chamou de vadia. No fundo aquilo não a surpreendeu, na verdade era algo até mais leve do que ela esperava, seu rosto ainda estava intacto afinal, seu coração ainda estava dentro de seu peito.
Ela respirou pelos lábios entreabertos, sentindo o ar frio entrar-lhe pela garganta enquanto uma idéia louca surgia em sua mente. E se ela o mordesse? Se ela o atacasse e o surpreendesse talvez tivesse uma chance de fugir. Ela passou a língua pelos lábios, sentindo as presas arranhá-la. Ela nucna havia feito aquilo, ela nunca havia atacado alguém antes.
Seu pai sempre lhe dera sangue e Sara sequer chegou a sentir sede em sua vida, estava sempre cercada de cuidados, estava sempre protegida pelo abraço do próprio pai, um vampiro muito acima do que ela e Raphael jamais seriam, um vampiro que nascera vampiro.
A pergunta dele deixou claro que ele notara as intenções dela. Como ele era capaz? Era como se ele a conhecesse muito mais do que ela jamais imaginara que alguém fosse capaz, além de seu próprio pai.
- Não! - ela tentou negar, sentindo as lágrimas encherem seus olhos. Como pudera pensar em algo tão estúpido como aquilo? O que ela achava que conseguiria afinal?
Ela sentiu Raphael congelar seus pulsos, prendendo-a na pista e num esforço inútil ela tentou se livrar do gelo, ralando a pele fina, manchando o gelo com um vermelho claro que logo se escureceu por conta da temperatura.
Ela o olhou, sentindo o pânico aumentar quando percebeu o que ele estava fazendo, quando o viu morder o próprio pulso e se aproximou. Laços, laços de sangue que não podiam ser quebrados com facilidade. Ela nucna beberia o sangue dele.
Ele precionava o pulso com tanta força que logo o rosto de Sara começou a doer, marcas vermelhas sobressaindo na pele que começava a ficar azulada pelo frio, mas ela não engoliria nenhuma gota, ela não...
Ela não teve alternativa, ela esperava algo quente e aconchegante como o sangue do pai, mas tudo o que Sara sentiu escorrer por sua garganta foi um líquido frio, amargo, tao cheio de dor que só a fez chorar mais. Ela queria cuspir aquilo, aqueles sentimentos, mas sua garganta pareceu arranhar ainda mais quando o sangue de Raphael a tocou, numa sensação que ela nunca sentira antes.
Ela ouviu as palavras dele, chorando ainda mais porque sabia que aquilo era verdade, que agora ela estaria tão ligada a ele que o sentiria ainda mais quando estivessem próximos.
A mão fria dele correu por seus cabelos, mas ela mal podia sentir seu toque, a sensação de pela primeira vez ter sede parecia algo que anulava qualquer outra sensação, inclusive a de medo dele e todas as coisas que ela sentia no sangue que agora descia por sua garganta. Como alguém poderia sentir tanta dor e ainda continuar em pé como ele?
Ela afastou-se, tinha que parar com aquilo. Fechou os lábios mas logo os abriu, suas presas os ferindo sem dó, expostas, desejosas por mais sangue, por sentir ainda mais a pele fria dele contra seus lábios.
"Não... por favor..." - a mente dela suplicou quando ele lhe perguntou se ela queria mais, mas tudo o que seu corpo conseguia fazer era pedir por mais, sem se importar com o peso dele sobre ela, seus olhos fixos no pescoço pálido, na veia que pulsava sob a pele, fazendo as presas dela doerem. Que tipo de sensação era aquela afinal? Por que ela nunca sentira aquilo antes? Seus olhos estavam vermelhos, seu corpo estava rijo, suas unhas estavam fincadas contra as palmas das mãos. Ela sentia-se totalmente sem controle.
O sangue dele agora se espalhava dentro dela e ela queria sentir mais daquela dolorosa sensação que era tê-lo invandido todo seu ser de uma única vez, ela queria desvendá-lo e matá-lo, ela queria que o fim viesse logo.
Seus lábios tremiam pela febre e pelo frio que se misturava dentro dela enquanto ela sentia Raphael prendê-la entre suas pernas. Talvez qualquer outra desejasse estar ali, mas ela...
- Eu não quero... - ela praticamente chorou aquelas palavras, fechando os olhos, tentando apagar a imagem dele de sua mente, tentando fazer com que todo aquele turbilhão de sensações dentro dela cessassem. Ela mal conseguia sentir o próprio corpo sob o corpo dele, mas sentia que ele estava próximo, muito próximo e num impulso tolo ela ergueu uma das pernas, sentindo a pressão nada gentil das pernas dele contra a coxa dela.
Ela abriu os olhos, sua visão enchendo-se totalmente com ele, coms os cabelos brancos que caiam sobre o rosto dele, sobre sua nuca, com o pescoço dele a milímetros de seus lábios. Ela deveria repudiá-lo, mas o cheiro que escapava da pele dele a envolvia de uma forma que ela nunca conseguiria explicar.
Seus lábios tocaram a pele fria dele, mordiscando-o, arranhando-o. Ela queria ferí-lo tanto quanto ele a estava ferindo, mas ela sequer sabia como fazer aquilo. A única pessoa que mordera em toda sua vida fora seu pai e ela sempre fazia aquilo com todo o carinho do mundo, pois ela o amava e entendia a honra que era o fato dele lhe ceder sangue.
Ela deixou sua língua correr pela pele de Raphael, estremecendo ao sentir o gosto dele, suas mãos se movendo, seus pulsos tentando se soltar, ela queria tocá-lo, ela queria ferí-lo, ela simplesmente o queria e ela não sabia exatamente porque.
Suas presas deslizaram pelo pescoço dele, o frio deu um breve instante para uma sensação quente quando o perfume dele pareceu tomar todos os seus sentidos, quando o sangue dele pareceu dominar novamente sua razão.
Suas presas afundaram lentamente na pele de Raphael e quando o sangue invadiu sua boca seus lábios colaram-se a pele dele, sugando com vontade dessa vez, sem mais negar a sede que sentia, sem mais se importar com toda a dor que o sangue dele lhe trazia. Ele gemeu e mais uma vez os pulsos dela se feriram nos gelos enquanto suas mãos tentavam se libertar.
Aos poucos a sensação que sentia de desejo foi diminuindo, a medida que o sangue dele preenchia cada veia dela, a medida que ele deixava o peso de seu corpo praticamente sufocá-la e aos poucos sua consciência foi voltando, enchendo-a com perguntas confusas, enchendo-a com uma sensação incrível de vazio. Por que ela havia feito aquilo?
– Por que...? Por que você faz isso? – ela afastou as presas do pescoço dele, ainda deixando seus lábios tocarem a ferida, cicatrizando-a num cuidado que ele não merecia, mas era algo quase inconsicente que ela fazia.
Ela deixou a cabeça pender para trás, trocando o chão frio enquanto encarava o apr de olhos azuis, sentindo a visão turvar, sentindo que agora estava totalmente a mercê dele. Sem resposta, ou ela não ouviu a reposta, pois logo sua mente se desligou, assim como seu corpo, o frio a vencera finalmente, a dor de todos aqueles sentimentos a esgotara como nunca.
Seu corpo ficou inerte enquanto os olhos de Raphael corriam por ela, os sons à sua volta chegavam como se ela estivesse afundando na água, confusos e sem sentido e tudo o que ela conseguia sentir era algo frio descer por seu pescoço.
A madrugada seguiu sem que ela sequer se movesse, lapsos de consciência a faziam mover a cabeça de um lado para o outro, os olhos mortos não se fixavam em nenhum ponto.
Suas mãos estavam ao lado do corpo, as algemas de gelo que a prendiam estava partidas, machadas de sangue, mas ela não sabia de onde tirara forças para rompê-las.
Os primeriso raios de sol encontraram Sara virada de lado sobre o gelo com uma mancha escura sob o rosto, uma mancha formada pela sangue de Raphael, pelo sangue que agora corria em suas veias.
Ela primeiro sentou-se, pingos de água escorrendo por seus cabelos, por sua roupa totalmente enxarcada. Seu corpo tremeu convulsivamente e ela se abraçou, sua mente tentando buscar as lembranças da noite passada.
As lembranças da noite passada, elas só vieram quando ela estava encolhida no canto do box no banheiro, enquanto um jato de pagua quente lavava completamente o gelo dela, de suas roupas. Ela sequer tivera forças para se despir, ou ela não queria se despir, não queria se sentir mais indefesa do que estava se sentindo agora.
As lágrimas desciam por suas bochechas que exibiam um tom vermelho alarmante pelas queimaduras do frio, mas ela mal sentia a dor dos machucados. O que doia era por dentro e doia de um modo que ela nunca imaginou que pudesse doer.
AS lembranças de Raphael misturadas dolorosamente em seu sangue, o ódio que ele sentia por ela e ela por ele dançando em suas veias, misturado aquela sensação estranha que parecia queimá-la por dentro e congelá-la em seguida. Por que o havia mordido? Por que havia desejado o sangue dele?
Ela abaixou a cabeça, afundando o rosto nas nãos feridas cobertas pelas mangas da blusa de lã, seus dedos se enroscando nos cabelos que caiam sobre o rosto, puxando-os.
Aquela sensação, aquela sensação de que estava sendo partida ao meio, aquela sensação dele sobre ela, cada parte de seu corpo encontrando o corpo dele enquanto o sangue dele vertia para dentro de sua boca. Aquilo era doloroso, era humilhante e ela torcia para que a água quente lavasse aquelas sensações, ela torcia para que fosse capaz de expelir todo o sangue dele de dentro dela, mas ela sabia que era impossível. E aquilo doía.
- Por que...? - ela soluçou num fio de voz, tossido, engasgando-se com a água do chuveiro, se encolhendo ainda mais. Por que ele havia feito aquilo? Por que a odiava tanto? Eles eram iguais não eram? Por que eles simplesmente não poderiam se dar bem e... ela poderia ajudá-lo com toda aquela dor - Por que... ainda está em pé?... - ela soluçava cada palavra. Quem era Raphael Grifftis afinal? O que ele queria afinal? Por que ele havia empurrado toda aquela dor para cima dela?
- Por que?... - ela ergueu o rosto, encarando as gotas de água quente como se ele estivesse ali, como se ele fosse responder. Mas ela sabia que ele nunca responderia e talvez naquela noite ele resolvesse tomar o sangue que lhe dera de volta, talvez ele quisesse espalhar aquela dor ainda mais.
Era tão intenso que fez Sara abraçar-se ainda amis ao se lembrar. Era doce e amargo, era frio e quente e doía e por um momento ela desejou toda aquela dor e elmbrar disso fez seu rosto arder e seu peito doer. Que tipo de pessoa ela etsava se tornando? Que tipo de pessoa ele a estava tornando?
-... espalhar toda essa dor... por que?.... - ela abaixou a cabeça, deixando os braços caírem pelo chão de ladrilho, as gostas de água se jutnando nas palmas viradas de suas mãos.
- Por...que? - seus lábios se moviam sem emitir nenhum som enquanto ela fechava seus olhos. Quantas noites ela levaria para descobrir? Quantos noites ela ainda teria?

Essa postagem é o segundo capítulo da Fic escrita por minah Amiga Fran, quem quiser conferir o primeiro capítulo basta clicar aqui. O primeiro capítulo conta os fatos na visão de Raphael Grifftis, um vampiro nada gentil!

segunda-feira, 12 de março de 2012

..>> Can You See me? <<..

O moletom cinza refletia os raios alaranjados do por do sol enquanto Icaru corria em volta do lago, o vento frio não lhe incomodava, sua pele sequer sentia a sensação gelada que desvia das montanhas e pairava pelas águas cristalinas do lugar. Ele não sabia exatamente porque estava fazendo aquilo, mas era uma forma de colocar suas ideias no lugar, de colocar um pouco de toda a energia que sentia em alguma coisa.
A princípio ele não estava interessado na maioria das atividades da escola, afinal ele não era um humano, não havia porque passar por aquele tipo de coisa, mas aos poucos as coisas mudaram. O time de basquete despertara sua atenção de forma natural, sua habilidade com a bola e a cesta surpreendeu-o e agora ele fazia parte da equipe.
Fazer parte de uma equipe, aquilo era algo que surpreendia de uma forma que ele não seria capaz de explicar para alguém, ou melhor, que ninguém entenderia afinal.
Ele ergueu a cabeça, os raios banhando seu rosto, deixando sua pele alaranjada enquanto ele sorria. Há quanto tempo ele estava correndo ali? Ele retirou o capuz, seus cabelos ruivos caindo sobre os olhos verdes, fazendo-o semicerrá-los enquanto movia a cabeça para o lado para afastá-los.
Seus olhos se fixaram em uma das mesas que ficavam dispostas à beira do lago, os longos bancos de madeira convidavam para pic nics, reuniões, mas isso não chamou a atenção dele.
Aquela hora a maioria dos alunos já estariam recolhidos, mas havia alguém sentando em uma das mesas e assim que reconheceu quem era Icaru sorriu. Ela estava retribuindo o favor que ele lhe fizera ao visitá-la em seu treino no tatame e agora estava ali esperando por ele?
Ele continuou sua corrida, subindo um pequeno morrinhoa té alcançar a mesa onde a garota estava. Ela usava uma jaqueta jeans surrada sobre uma regata verde oliva e shorts pretos, trazia sua espada de kendo e estava com os cabelos presos, provavelmente ela havia acabado de deixar o treino. Ao lado dela um saco pardo deixava escapar um cheiro muito apetitoso.
- Oi... - ele escalou o banco e sentou-se ao lado dela na mesa, Yumi afastando-se de lado e o olhando, sorrindo com o cumprimento.
- Oi... - ela respondeu num tom baixo e ele reparou que o rosto dela ainda estava corado, é, talvez ele estivesse certo e ela tivesse saído do treino a pouco tempo. Ele desviou o olhar para o saco, reconehcendo a logomarca de um restaurante de fast food. Ele sentiu seu estômago roncar, aquilo era tão humano afinal.
Yumi tirou um dos copos vermelhos de refrigerante e colocou diante dele, espetando o canudo amarelado e esperando que ele apanhasse. A bebida estava doce e gelada, o que era muito bom depois de uma corrida.
- Achei que havia um trato sobre não mimar um ao outro - ele disse, encostando o canudo na boca e tomando um gole enquanto a olhava - Ou então algo me diz que o gosto doce dessa bebida vai ter um preço um pouco amargo - ele sorriu, sabia que ela nunca lhe pediria nada demais. Amigos, ela havia se tornado sua melhor amiga naquele um mês.
- Eu só achei que seria justo - ela respondeu, dando de ombros enquanto apanhava o outro copo e fazia o mesmo com o canudo, tomando um longo gole da bebida - Me disseram que você foi muito bem no treino de hoje, então achei que o novo capitão merecesse - ela ergueu o copo como se brindasse e Icaru coçou a cabeça, encolhendo como se ficasse pouco a vontade com aquele título, mas sorriu.
Ele estava com os dois pés sobre a mesa, ao contrário dela que mantinha os pés sobre os bancos. Ele deixou o refrigerante de lado e estendeu a mão, pedindo o pacote de lanches.
- As notícias correm rápido demais aqui, eu havia me esquecido disso - ele respondeu um tanto sério - Mas eu vou aceitar sua comemoração... - ele disse, apanhando os aco que ela lhe jogou no ar e abrindo. Um sanduíche com bacon e queijo, era tudo o que ele poderia desejar e desejava naquele momento. Havia outro sanduíche, provavelmente o dela. Ele retirou os dois dali de dentro e então estendeu para ela o outro embrulho, um sanduíche de frango e salada.
- Se não aceitasse eu faria você engolir ele de qualquer forma - ela apanhou o sanduíche da mão de Icaru e então passou a desembrulhá-lo, olhando para o pão em sua mão - Na verdade as notícias não correm tão rápido assim, foi só alguém que me disse, alguém que estava feliz por você - ela completou num tom baixo, levando então o lanche à boca.
Icaru mordeu seu próprio lanche, ele sabia quem seria o tal alguém a quem Yumi se referia, era alguém que ele estava tentando evitar em pensar, tentando evitar em encontrar, mas era impossível afinal. Ela estava no treino, estava em todos os treinos para dizer a verdade e por algum motivo ele torcia que o motivo para a assiduídade dela fosse outro que não ele.
- Eu também estava no treino de hoje, um pouco, no começo na verdade - Yumi continuou ao notar que ele nada dizia. Ela o olhou de lado, sabia bem qual era a expressão que Icaru fazia quando ela começava a falar sobre aquele assunto.
Ele deixou seu olhar vagar pelo horizonte onde os raios laranjas começavam a ser substituídos pelos raios arroxeados do anoitecer.
- O que mais ela disse? - Icaru interrompeu Yumi, colocando seu lanche sobre o embrulho, observando a caçadora morder o lábio enquanto tornava a olhar seu próprio lanche, como se ele fosse capaz de lhe dizer o que exatamente ela tinha que dizer para Icaru. O que ela tinha que dizer para que ele simplesmente não virasse às costas entendendo tudo errado.
- Não conversamos muito, eu queria sair para comprar os lanches. Ela disse que está orgulhosa de você, mesmo que isso não import... - ele se calou ao ouví-lo bufar e ele saltou da mesa, levantando-se e andando de um lado para o outro, com as mãos nos bolsos.
Sua mente tinha claro a imagem da outra garota, os longos cabelos caindo sobre as costas dela, o sorriso que sempre se mostrava gentil para ele. Ela não podia entender? Eles cometeram um erro.
Aquela noite no quarto dele não ia se repetir, o beijo, as discussões. Tudo aquilo deixava claro que havia algumas coisas que não tinham porque ser e mesmo que algo dentro dele queimasse quando ele lembrava daquilo ele sabia que era mero desejo. O que Marina idealizava nele só existia na mente dela, ele era confuso, ele não era nenhum herói, ele era apenas alguém perdido, um otário perdido em seus próprios erros. O filho de seu próprio fracasso, cheio de buracos em sua própria personalidade, tornando-o tão inconstante ao ponto de beijá-la e depois desejar esquecê-la.
Ele parou diante de Yumi e olhou para ela. Ela também não tinha culpa, mas ele sempre ficava tão irritado quando ela começava a falar daquele modo, quando ela tentava fazer com que ele aceitasse o fato de que Marina estava apaixonada. Ele não sabia explicar o porque, mas se qualquer outra pessoa dissesse aquele tipo de coisa tudo seria diferente, ele saberia o que responder, mas quando era Yumi ele simplesmente saia do sério.
- Eu já falei com você sobre isso Yumi, você já... viu como isso funciona... - ele parou diante dela, apoiando as mãos sobre a mesa, uma de cada lado dela, olhando então nos olhos da garota - Pare de tentar mudar isso, eu não vou voltar com ela - ele se afastou, sentando então no banco ao lado dos pés dela e apoiando às costas na mesa, deixando sua cabeça pender para trás, olhando o céu, olhando as nuvens sobre as copas quase negras das árvores - Por que você quer tanto isso? - ele perguntou de repente, se virando para ela.
Yumi arregalou os olhos por um momento, encarando-o sem saber o que realmente responder, porque ela realmente não entendia o porque de querer ver Icaru com outra garota. No fundo ela apenas não queria admitir que aquela seria a maneira mais fácil para que ela não se sentisse tentada e desejar que ele olhasse para ela.
Ela desviou o olhar, ajeitando-se melhor sobre a mesa, colocando um dos pés sobre o tampo de madeira e mordendo seu sanduíche, fazendo qualquer coisa para adiar a resposta que Icaru queria ouviur, porque aquela não era a resposta que ela queria dar.
- Vocês são bonitinhos juntos - ela limitou-se a dizer e Icaru riu, seu riso saindo cheio de cinismo enquanto ele se levantava e sentava-se na mesa dessa vez.
Ele inclinou o corpo para frente e apoiou os cotovelos no joelhos, olhando para frente enquanto abria e fechava a boca algumas vezes, as palavars dançando em seus lábios, mas ele desistia e acabava negando com a cabeça.
- Se for assim então eu talvez deva ficar com você - ele se virou para ela, ela certament se magoaria com ele, asm ele estava irritado e não cnseguia pensar em alguma coisa gentil a dizer e ele não queria mais ouvir aquele tipo de insinuação - Você combina comigo em muitos sentidos então talvez a gente simplesmente devesse levar isso em conta e nos beijar agora - ele ergueu a mãoa té o rosto dela, segurando seu queixo e se aproximando.
A frase fizera uma onda de choque correr pelo corpo da garota e ela só se deu conta da proximidade de Icaru quando o nariz dele estava quase tocando o dela. Como se ele lhe desse um choque ela acertou-se um tapa na mão, se afastando dele com uma expressão zangada. Por que ele estava agindo daquele modo?
Ele afastou a mão, abaixando a cabeça enquanto Yumi permanecia calada, o coração batendo rápido demais, seus dedos afundando no pão macia, fazendo o molho manchar a embalagem do sanduíche. Sim, fora bastante estúpido o que ela havia dito, mas ele não precisava agir daquela forma, como se ela simplesmente nunca fosse rejeitá-lo. Ela rejeitaria ele, ela tinah que rejeitar ou ele não estaria mais ali.
- Você é tão estúpido! - ela exclamou e dessa vez foi ela quem levantou da mesa, as mangas da jaqueta jeans cobriam suas mãos e ela as apertava com força, sua bota agora chutava e torturava a grama da beira do lago - Isso não tem a ver comigo, eu não estou apaixonada! - ela disse, fechando os olhos por um minuto e colocando as mãos sobr as têmporas, as apertando enquanto tentava se acalmar e não dizer algo do que fosse se arrepender depois.
Ela não estava apaixonada, ela só havia amado um cara em toda a sua vida e era nele que seus pensamentos se forçavam em encontrar um ponto. O desprezo do outro garoto era a melhor forma de colocar todos os garotos como desprezíveis, achar que Icaru ficaria com Marina e ignoraria ela era a melhor forma de colocar qualquer sentimento de atração que tinha por ele num ponto onde se tornaria apenas uma emoção desprezível.
- Ela não está apaixonada! - ele replicou, batendo a mão em punho no banco de madeira. Que droga! por que ninguém conseguia entender que aquilo fora culpa dele? Fora ele quem beijara Marina e agora ela acreditava que ele era o melhor para ela? - Se eu beijar você vai ser o suficiente para dizer isso? Por que você não entende de uma vez por todas? - ele se levantou e parou ao lado dela - Por que acha que se eu quisesse estar com ela eu não estaria ainda amis sabendo que ela também quer isso?! Que droga! De todos os idiotas que me perguntam isso o tempo todo, que me perguntam sobre ela, você é a que mais me irrita Yumi Campbell! - ele esperou que ela ao menos o olhasse dessa vez.
Yumi sentiu seu estômago se embrulhar enquanto aquela sensação de que lágrimas se acumulavam em seus olhos se fez sentir. Aquilo era ótimo, aquela sensaçãod e que você fez algo estúpido mas podia se desculpar caso aprecesse ser frágil demais. Era ótimo, mas ela não queria aquilo. Ela se virou para Ivaru deixando toda a indignação que sentia tingir seu rosto.
Uma sensação ruim, aquela sensação que temos um segundo de dizer as coisas que não devemos dizer. Aquele filme cheio de cenas com a pessoa que estamos afastando. Ela mal havia aberto a boca e podia ver Icaru através da grade que separava a quadra e a arquibancada. Ela sorria e acenava e ela acenava timidamente, tinha medo de magoar Marina, mas ele parecia imune a outra garota.
Ele corria com a bola, batendo-a com rapidez no chão, mas na mente dela cada impacto acontecia em câmera lenta, como as batidas de seu coração, cada desvio dele era como se ele deixasse os adversários para trás e viesse até ela e ele estava vindo, mas quando estava há alguns metros ele saltou, saindo de seu campo de visão.
Um ponto para o time, ele ainda estava pendurado no arco, rindo e então caiu diante dela, os cabelos ruivos quase cobrindo os olhos, a pele dele com um brilho quase sobrenatural, era tão diferente vê-lo como alguém normal, como um garoto de colégio fazendo cestas para o time.
- Pra você... - ele sussurrou e então virou-se de costas, correndo novamente para o meio da quadra. Ela sorriu, mas seu sorriso logo sumiu quando ela notou o olhar da outra garota sobre ela.
Yumi sentiu um calafrio quando seus olhos encontraram os de Marina e ela sentiu que sua amizade com Icaru realmente deveria incomodar a outra garota, mas fora algo que acontecera naturalmente, algo que ela não conseguira impedir.
- Eu estou falando com você! - Icaru segurou o ombro dela e a sacudiu, Yumi demorou alguns segundos para perceber que não estava na quadra, que ele estava diante dela e que os olhos dela estava vermelhos, assim como a ponta de seu nariz - ... por que está chorando? - ele perguntou, tirando a mão do ombro dela, como se aquilo fosse uma arma e não dedos.
- Eu não estou... - ela levou as mangas da jaqueta ao rosto, passando-as de forma nervosa sob os olhos, fechando-os por um momento - E eu... - ela mordeu o lábio, lembrando-se do olhar de Marina, lembrando-se do olhar dele ao fazer o ponto, lembrando de cada olhar dele, de cada vez que ele não se importava nenhum pouco de deixar Marina falando sozinha e ir até Yumi. Ela se sentia uma intrusa - ...Eu não quero me apaixonar por você nunca! - a frase escapou, surpreendendo até mesmo Icaru que recuou um passo. Ela havia dito aquilo com tanta raiva que tudo o que ele conseguiu fazer foi erguer as mãos e abrir a boca, mas nenhum som saiu - Eu sou uma idiota irritante, mas você é pior do que eu! E se te irrito então porque quer tanto ficar aqui? Por que você fica dizendoe fazendo coisas como se eu fosse sua amiga? Como se eu importasse?! Como se eu... valesse... - a voz dela foi sumindo. Ela havia tentado ser tão forte, tantas vezes, ainda mais quando estava com Icaru aquilo era tão difícil.
Icaru ficou em silêncio, observando a garota que insistia em manter a cabeça baixa e enxugar o rosto, fungando o tempo todo, como uma menininha que não conseguia enfrentar seu problema e no caso ele era o problema.
- Você está me irritando... - ele começou e Yumi sentiu uma pontada no estômago, mesmo bravo, aquele não era o Icaru que ela conhecia, aquelas coisas que ele dizia não eram as coisas que ele dizia - como se valesse... - ele repetiu em voz baixa, aproximando-se então dela, apoiando as duas mãos nas curvas da cintura estreita da garota - você me irrita quando não vê as coisas... - ele completou, puxando-a para um abraço, forçando-a contra seu peito memso que ela relutasse.
- Pra você - ele havia oferecido aquele ponto para ela no treino do dia anterior e ele queria oferecer mais pontos, havia sido um bom jogo, o melhor jogo an verdade. Agora que estava acostumado com os outros garotos do time, que sabia o quanto poderia se esforçar, ele sentia-se mais animado.
Ele fez mais pontos na partida, mas quando a procurava nas arquibancas para dizer algo não a encontrava. Yumi havia simplesmente saído e sequer se despedira. Havia acontecido algo?
Ele sentiu-se irritado, o olhar de Marina parecia perseguí-lo por toda partida e sempre que ele encarava os bancos a havia acenando para ele, vendo-se obrigado a retribuir, vendo-se obrigado a sorrir, mas ele sentia que aquilo estava errado.
Depois do treino a garota fora falar com ele, mas ele não tinha nada a dizer, ele não sabia o que dizer e isso foi o suficiene para que ela pregasse uma peça nele.
Os lábios dela moviam-se sobre os dele como na primeira noite dele no Canadá, como a boas vindas de Whitler e tudo o que ele limitou-se a fazer foi afastá-la. Marina sorria de forma vitoriosa e se afastava e ele permanecia ali como uma estátua, sem coragem de dizer o que tinha que dizer para Marina.
Ele apoiou a cabeça nos cabelos de Yumi e então fechou os olhos.
- Marina! - ele chamou e a garota parou, surpresa e ele caminhou até ela, olhando-a nos olhos. Era difícil encarar alguém que tem tantas ilusões sobre você, mas ele sabia que se não dissesse aquilo naquele momento ele nunca diria - nós precisamos conversar... - ele começou, torcendo para que nada desse errado dessa vez, para que ela não desmaiasse ou fingesse qualquer mal estar. Ela nunca o ouvia até o fim e aquilo era tão injusto.
Lágrimas, as mãos dela acertaram seu rosto diversas vezes, frias e quentes, exatamente como todos os sentimentos que passavam pela cabeça da garota. Ele estava sendo sincero, ele não podia ser alguém que ela queria que ele fosse, ele não podia ser o garoto perfeito, porque ele não era perfeito, ele era um fracasso.
Ele ficou uma longa hora a abraçando ali, perto dos vestiários, ouvindo algumas piadinhas de quem passava, até que por fim ela se acalmou. Não, ela não ia desistir, ela jurara aquilo para ele, olhando-o cheia de mágoa mas ainda cheia de amor.
Ele passou a mão pelo rosto e deixou-se escorar pela parede enquanto a menina ia embora. Icaru bufou, olhando o corredor agora vazio e praticamente escuro, fora o último a deixar o ginásio naquela noite.
Yumi permanecia imóvel em seus braços e ele a afastou apenas para ter certeza de que ela ainda estava chorando, que ele a havia magoado com suas palavras, que ele estava sendo dúbio e imprudente com os sentimentos dos outros. Ele não devia ter dito que a beijaria, mas ele quisera dizer isso. O motivo era tão simples.
- Yumi... - ele colocou a mão sob o queixo dela, erguendo o rosto e vendo os olhos verdes semicerrados cheios de mágoa. Ele quase riu, afinal eram tão irônicos aqueles mals entendidos - Me desculpa... - ele pediu, sua expressão tornando-se estranha enquanto ela apenas assentia dizendo que sim, encarando-o com um ar de superioridade, como se tudo aquilo de agora pouco não tivesse sido nada.
Ele bufou, soltando o rosto dela e passando a mão pelo pescoço, olhando em volta os últimos raios laranjas se apagando, a escuridão passando a cercá-los.
- Se pudesse mudar alguma coisa Yumi, quando chegou aqui, você mudaria? Você me... ignoraria aquele dia na escadaria? - ele perguntou, passando a língua pelos lábios, eles pareciam secos como se não bebesse nada há horas.
- Não! - ela respondeu prontamente, mordendo o lábio em seguida, olhando-o nos olhos. O que era aquela pergunta agora? - Não sou eu quem estou com raiva de você - ela disse - além disso, nada se pode mudar do passado, se mudasse... talvez nada realmente mudasse - ela continuou, sentindo-se confusa e preferindo se calar então. Falar de sentimentos era tão difícil.
- Então tudo bem - ele assentiu e depois negou com a cabeça, assentindo novamente. O que estaria pensando? Ele estava agindo tão estranho.
Os lábios de Icaru se fecharam numa linha reta e ele voltou a encarar a garota diante dele, os cabelos ruivos dela apreciam ganhar ainda mais vida ao pôr do sol.
Ele estendeu a mão, envolvendo a nuca dela, olhando-a fixamente por alguns segundos, seus olhos querendo decorar cada linah do rosto de Yumi antes de se fecharem e então ele a puxou para frente, colando seus lábios sobre os dela, movendo-os com um pouco de urgência enquanto sentia o gosto salgado das lágrimas dela misturarem-se ao gosto doce do refrigerante.
Icarus entiu os punhos fechados da garota encontrarem seu peito, esmurrando-o tentando afastá-lo, mas ele continuou no mesmo lugar, mesmo que aqueles golpes cheios de raiva o incitassem a fugir. Não, ele não ia fugir, ele ia fazer aquilo pelos dois então, pelo pouco tempo que restava para os dois. Se ele se arrependeria depois e mudaria algo? Não, como Yumi mesma dissera, talvez nada mudasse.
Os sons de protestos dos lábios dela logo se calaram e então ele deixou sua língua deslizar para fora de sua boca, encontrando a boca dela, sua mão descendo pelos longos cabelos que se enroscavam em seus dedos enquanto com o outo braço ele envolvia as costas dela, trazendo-a para si.
Então aquela era a sensação certa de se sentir? Quando não era só o desejo que queimava e você queria tanto aquela pessoa como se ela fosse uma parte sua arrancada e agora estivesse ali, prestes a se juntar a você pelo simples toque de um beijo?
Icaru fechou a mão nos cabelos dela, afastando-os do ouvido de Yumi, deixando seus lábios deslizarem pela bochecha dela até encontrarem seus ouvidos.
- Você me irrita... porque você não me vê e eu te vejo o tempo todo - ele confessou num sussurro. Estava cansado dela olhar para ele e ver apenas Marina enquanto ele a deixava cada vez mais entrar em seu mundo, cada vez mais guiar o que ele fazia e sentia.
Ele voltou a beijá-la, deixando sons doces e baixos escaparem de seus lábios enquanto provava a pele dela, o gosto salgado de todo de todo o esforço dela no treino, das lágrimas que haviam escapado. Ele queria aquilo, ele quisera aquilo por muitos momentos.
Ele se afastou dela, seus olhos procurando o olhar confuso da garota enquanto ele simplesmente sentia-se completamente compreendido. Não havia no que pensar naquele momento, no que questionar. O que ele queria e pensava ficara tão claro que ele sentia que se sua existência terminasse naquela noite ele teria feito exatamente o que tinha que ser feito.
- Eu quero que me enxergue... a partir de agora eu quero que me veja e não veja outra pessoa além de você ao meu lado... - ele soltou ela de seu abraço e então recuou um passo, deixando sua mão descer pelo braço da garota - Eu... quero você do meu lado, em todos os treinos, em todos os momentos em que você puder fugir e vir até mim, em todos os minutos que você tiveer disponível e quando não tiver mais nenhum tempo. Eu não me importo se isso é ser egoísta, mas eu vi que o amor é egoísta então eu não vou fingir que eu sou melhor do que realmente sou e deixar você livre - ele estendeu a mão - Você... me vê agora Yumi? - ele perguntou, fazendo um gesto no ar - Você vê o quanto vale para mim?
Yumi sentia o sangue pulsar em suas bochechas, seus olhos fixos em Icaru como se o visse pela primeira vez. A mão estendida dele no ar, as palavras dele, o beijo.
Seus lábios ardiam ao sentir os resquícios do toque dos lábios de Icaru e ela ainda não conseguia entender o que acontecera. Seu coração batia tão forte como todas as dúvidas e cenas anteriores martelavam perguntas em sua mente, acima de todas aquela que ele fazia.
Ela conseguia enxergá-lo? Ela conseguia ver além do ex-namorado de uma das garotas do colégio que ainda era apaixonada por ele? Ou ela só via eles juntos e ela ainda era a intrusa?
A mão de Yumi tremia quando ela a colocou sobre a mão de Icaru e ela sabia que o que dissesse, qualquer coisa que dissesse não seria sincero, então talvez fosse melhor não dizer nada, então talvez fosse melhor aprender a caminhar segurando aquela mão e aprendendo a ver quem ele era de verdade.
- Eu quero ver você, eu quero te ver de verdade - ela deixou seus olhos encontraram o dele e ele apenas assentiu, o silêncio os cobrindo assim como o anoitecer que finalmente caia.
Não precisaria de muitas palavras bonitas ou pensadas, agora havia algo novo para ambos, algo que eles descobririam por suas próprias pernas e veriam por seus próprios olhos, com suas próprias feridas, seus erros e acertos.
Esse se aproximou dela mais uma vez e então a abraçou, no fundo estava feliz por ela não ter dito nada, por não ter colocado sentimentos onde deveria apenas existir o silêncio e quando ela envolveu ele em seus braços ele percebeu que agora ela começaria a vê-lo, a ver somente ele.

Para quem quiser curtir a soundtrack da fiction: http://www.youtube.com/watch?v=2DpMPzu5SrM

sábado, 25 de fevereiro de 2012

..:: Tão perto ::..


(Todos os personagens dessa história são fictícios)


I've spent so much time
Throwing rocks at your window
That I never even knocked on the front door

I walk by statues never even made one chip
But if I could leave a mark
On the monument of the heart
I just might lay myself down
For a little more than I had

The last day
The last day
The last day

Wait a time to spare these lies
We tell ourselves
These days have come and gone
But this time is sweeter than honey

""Por todo tempo eu estive olhando pela janela

Desejando alcançar o lado de fora

Meus dedos tocavam os vitrais coloridos imaginando se o mundo lá fora também era assim

Mas nunca ousei tocar o fecho e empurrar aquelas folhas

Por todo esse tempo eu estive olhando pela janela e nada fiz

Assim a vida passou...""

Eu me lembro que quando era pequena havia uma grande janela com grossas cortinas encardidas.

Ela janela ficava numa sala onde minha família guardava quinquilharias, móveis antigos, brinquedos usados, ferramentas que todos sabemos que talvez (ou nunca) um dia iremos precisar. Aquela era a sala dos fantasmas.

Eu gostava daquele canto da casa, na verdade ele acabou tornando-se um dos meus cantos favoritos.

Sempre que queria ler e queria um lugar sossegado para fazer isso eu levava meus livros para aquela sala e me sentava abaixo da janela, o lugar mais iluminado daquele lugar e ficava ali até que o sol houvesse se escondido demais a ponto de eu não conseguir enxergar mais nenhuma das letras nas páginas.

Geralmente quando estava ali eu lia em voz alta, gostava de fazer caras e bocas imaginando as feições dos personagens das histórias que povoavam minha infância.

Um belo dia ao chegar na sala me deparo com um vulto na janela e sinto meu coração saltar no peito. Do lado de fora havia um homem, provavelmente meu vizinho. Mas o que ele estaria fazendo ali?

Chamei, mas não obtive nenhuma resposta e então me aproximei, sentando-me em meu lugar sob a janela e começando minha leitura. Talvez ele estivesse apenas cuidando do jardim dele, afinal aquela janela dava para o jardim vizinho.

Eram quase sete horas quando terminei minha leitura, tão distraída que já havia me esquecido do vizinho, tão entretida em interpretar às frases e os personagens que esqueci do intruso na janela, afinal ele estava ali em meu mundo sem ser convidado.

Quando me levantei olhei para o pano em tons de azul escuro e roxo pelo pôr do sol apenas para ter certeza de que ele já havia se ido e realmente fora o que acontecera.

No dia seguinte, logo após o almoço eu voltei para meu cantinho, com novos livros que havia comprado naquela manhã e alguns sanduíches que havia feito. Assim que entrei na sala empoeirada e cheia de objetos cobertos por lençóis me deparei novamente com o vulto na janela.

Isso aconteceu ao longo de toda a semana, de todo o mês e quase um ano depois, em uma manhã chuvosa, soube que meu vizinho morrera em um acidente de carro.

Entristeci-me sinceramente, estava acostumada à sua presença todos os dias nas janelas, às vezes acabava lendo um pouco mais alto do que costumava apenas para que ele ouvisse também. Não sabia se ele gostava do que ouvia, mas como todos os dias estava lá eu passei a me esforçar em minhas interpretações e às vezes até fazia perguntas, para as quais eu nunca ouvia uma resposta, mas nunca me sentia triste com isso.

Desanimada, fui para meu canto preferido da casa mas assim que encostei meus dedos na maçaneta dourada da porta desisti. Meus momentos de leitura que tanto me agradavam agora tinha perdido seu expectador e sua graça.

Passei um mês inteiro sem abrir aquela porta até que por fim o lançamento de uma nova história me cativou e como eu não poderia imaginar outro lugar para ler corri para a sala dos fantasmas e ao abrir a porta eu simplesmente congelei. Na janela, lá estava o vulto de meu vizinho fazendo sua sombra sobre as cortinas.

Pisquei diversas vezes, sentindo minhas mãos suarem enquanto o sangue parecia bombear em meus ouvidos.

Olhei para trás, para o corredor vazio e então tornei a olhar à janela. Imóvel, o vulto continuava em seu mesmo lugar, assim como eu.

Num impulso de coragem dei um passo para dentro da sala e então mais um e depois mais um, até me aproximar. Pensei em me sentar e ignorar aquilo, mas não conseguia. Meu medo e minha curiosidade cresciam a cada segundo enquanto em encarava as pesadas cortinas cerradas e o vulto por trás delas. Por todo aquele ano eu sequer havia visto seu rosto, ouvido sua voz. Para mim, nossas tardes onde eu lia deveriam ser mantidas em segredo, porque todos julgariam estranho eu passar a tarde toda com um desconhecido, contando-lhe histórias.

- O que está fazendo? - a voz da minha mãe às minhas costas me fez dar um salto e quando me virei deveria estar mais pálida do que qualquer fantasma de qualquer história de terror que já lera - Está pálida, não deveria ficar o dia todo nessa sala sem sol! - ela exclamou, aproximando-se de mim e da janela, puxando então as pesadas cortinas para o lado.

- Não! - eu gritei e derrubei meu livro no chão, jogando-me sobre mamãe como se fosse salvá-la de uma bala perdida, ela com certeza não estava vendo o vulto ali!

- Você enlouqueceu? - ela me perguntou, olhando então para a janela e rindo em seguida - O que? Vai me dizer que está com medo disso? - ela apontou e temerosa eu segui sua indicação.

Sim, lá estava ele, mas ao contrário do que pensei ele estava de costas.

Separei-me dos braços de mamãe e então me aproximei do vidro da janela, observando suas formas tão perfeitas molhadas pelo orvalho da manhã, sua superfície coberta pelo musgo esverdeado e por presentinhos que os passarinhos haviam deixado.

- ... - mal consegui responder mamãe, apenas encarando a estátua que ficava próximo à janela, formando o vulto agora no chão de madeira empoeirado.

Por quase um ano eu achara que estava conversando com alguém, dera vida àquela estátua e agora que descobrira a verdade me sentia perdida.

Milhares de coisas passaram por minha cabeça naquele momento, mas mesmo em minha infância, eu nunca pensei que havia perdido tempo com aquilo, com aquela amizade construída com o que para minha mãe era provavelmente um pedaço de pedra.

Sem hesitar, sai correndo da sala com meu livro em mãos e atravessei meu jardim, passando pelo vão da cerca que delimitava nosso terreno e parando quando alcancei o jardim vizinho.

Respeitosamente olhei em direção à casa, como se pedisse permissão e logo em seguida dei a volta para alcançar a parte detrás do jardim, onde estava a estátua.

Encarei seus olhos vazios por alguns segundos e então sorri, sentando-me diante dele e começando minha leitura.

É impressionante eu sei e até um pouco difícil de imaginar, mas agora aquela criação de pedra imóvel era meu melhor amigo e sem reclamar emprestou-me seus ouvidos por um longo tempo.

Tirei muitas lições que não julgo necessário relatar aqui, mas é claro que dentre todas essas lições sempre houve uma pergunta da qual nunca tive resposta. Quem ele era? Quem fora meu vizinho? Desde sua morte a casa permaneceu e permanece vazia. Será que ele também teria me ouvido? Será que ele também teria lido comigo?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

..:: A Dama das Cinzas, Branca de Neve ::..


Era a mais bela do reino e era então filha do rei, um rei justo e digno que tomara por esposa uma mulher de índole indigna.

Diziam que era uma feiticeira, diziam que era uma cortesão, tudo o que diziam sobre ela eram injúrias, mas o rei estava cego em sua paixão e seus ouvidos estavam surdos pelas batidas de seu coração.

Era a mais bela e bondosa e era a filha do rei e tinha por madrasta a mulher mais bela e maldosa que em pouco tempo enegreceu de tal forma o coração do bondoso governante e escureceu sua visão, transformando-o em um tirano que do alto de seu trono nada via além de sua esposa e sua filha.

“Era a filha do rei e deve ser morta” – pensava a mulher todo dia ao acordar, enquanto penteava seus longos cabelos dourados como ouro dos tolos e seus olhos cinzentos de tempestade encaravam ao espelho que lhe respondia com a mesma frase.

“É a filha do rei e é a mais bela e a mais bondosa...”.

Aquela frase enfurecia o coração da madrasta, que a princípio tentou ensinar à menina suas magias nefastas e encantá-la com o dom da dama da morte, mas que agora sentia a inveja crescer, pois sem enganar à morte, Branca de Neve tinha em seu rosto o brilho da vida que a tornava perfeita e a pureza em seu coração que a tornava intocada.

“Traga um caçador cruel, que em seu coração não haja nada além da ânsia por dinheiro e poder” – ordenou então aos guardas reais e trouxeram à madrasta o mais terrível caçador.

Suas roupas guardavam ainda o sangue de sua última vítima e em seu pescoço havia um colar cheio de presas afiadas de suas vítimas.

“Quero que mate um cervo, é puro e saltita pelos jardins do castelo, irrita-me ver sua alegria!” – a mulher lhe ordenou e então apontou para o espelho.

Refletido, o homem não viu sua caretonha, mas sim a jovem filha do rei que brincava entre flores e pássaros.

“Leve-a para o bosque, diga-lhe que irão apanhar uma família de coelhos para lhe fazer companhia e então me traga o coração nesta caixa. Quando eu tocar essa caixa o coração se transformara em ouro e essa será sua recompensa” – anunciou a mulher, fazendo o homem cruel sorrir.

Era a mais bela e era filha do rei cego pelas trevas e era inocente como os cervos que saltitavam pela floresta. As palavras do caçador fizeram-na saltitar rumo ao bosque e alegremente ela colhia flores para enfeitar à toca dos coelhinhos que buscariam.

“Acha que vão me amar?” – seus olhos azuis como os céus encontraram os olhos frios do caçador e ele se viu refletido neles e então ele viu toda a beleza da alma pura, pois não são os olhos o espelho da alma?

“Não haveria de ser de outro modo” – ele disse, desviando o olhar da pequena e então se forçando a pensar no coração de ouro.

Andaram ainda mais para dentro da floresta e agora Branca de Neve colhia frutos para alimentar à família de coelhos.

“Acha que gostarão das maçãs que estou colhendo?” – ela perguntou, erguendo entre as mãos brancas uma maçã vermelha, oferecendo-a ao caçador e este se surpreendeu. Ninguém havia lhe dado nada gratuitamente e mais uma vez seu olhar enterneceu-se sobre o rosto da jovem.

“Não haveria de ser de outro modo” – respondeu mais uma vez o homem e apanhou a maçã, devorando-a, sentindo o sabor doce da fruta em sua boca tão amargurada.

E assim prosseguiram o caminho, até que em determinado momento ela abaixou-se para encher uma cabaça com água e lavar o rosto. Estava de costas, despreocupada com o caçador, a quem julgava um companheiro, mas mal sabia que o homem lhe apontava uma flecha.

Ao encher a cabaça de água virou-se para oferecer ao homem um refresco, quando então se deparou com a seta mortal, apontada em sua direção.

Sua expressão encheu-se de pavor e seu coração acelerou-se dentro do peito. Por que aquele homem queria lhe ver morta? O que teria feito de errado?

“Perdoe-me” – ela exclamou, ainda de joelhos diante do caçador e então abaixou a cabeça – “Seja o que for que lhe fiz de mal, me perdoe!” – era doce e suplicante sua voz, mas a seta rasgou o ar em sua direção, atingindo então uma serpente que se pendurava nos galhos da árvore inclinada sobre o rio.

“Tome cuidado princesa, há cobras onde menos imaginava” – alertou-lhe o caçador, enquanto a cobra peçonhenta caía do galho dentro das águas do rio – “Há uma grande cobra em seu castelo e ela deseja seu coração de ouro! Fuja princesa, fuja enquanto os olhos de vidros de sua madrasta não a alcançam!”

Ao fim da tarde, tendo apanhado o coração de um cervo e colocado na caixa, o caçador retornou ao castelo ouvindo então os gritos da madrasta enlouquecida após constatar que aquele não era o coração verdadeiro e lhe explicar que não seria capaz de matar ao anjo daquele castelo.

“Inútil!” – ela bradou, tirando de uma parte secreta das saias do vestido uma varinha encantada, apontando-a em direção ao homem que se transformou em pedra.

“Terei eu que fazer o serviço!” – exclamou a mulher irada e sem prestar satisfações ao marido enlouquecido que ria sozinho em seu trono a madrasta saiu pelas portas do castelo, transformando-se então numa velha senhora que carregava com postura encurvada uma cesta com as mais lindas maçãs.

Sua intuição guiada pela bruxaria e por mil demoniozinhos, lhe dizia que estava Branca de Neve numa casa onde sete homens pequeninos lhe faziam companhia. Eram os Sete Anões, os sete anjos que guardavam àquelas terras onde a maldade jamais chegara.

Pois a bruxa esperou que aqueles anjos enterrassem suas asas dentro das minas e que cobrissem suas asas com as cinzas da porta do inferno para aproximar-se de seu santuário e arrebatar-lhe a princesa.

Ofereceu-lhe a mais bela das maçãs e, saudosa das refeições fartas de seu palácio, Branca de neve fincou seus dentes no fruto considerado a perdição dos homens.

Engasgou-se e envenenou-se, seu corpo sem vida tombando no chão do santuário dos anõezinhos, a fruta da serpente rolando de sua mão.

Ao retornarem, os anões perceberam que a Dama Negra rondava à casa e numa perseguição inútil tentaram lhe alcançar, mas mesmo que a perseguição triunfasse o mal já estava feito.

Fragilizados, retornaram então para à pequena casa perdida no bosque, ainda a tempo de encontrar a morte levando a alma de Branca de Neve pela mão.

“Espere!” – um deles suplicou e correu até a alma da jovem, segurando-lhe a mão etérea, olhando-a nos olhos sem brilho – “Pois não dissemos que não abrisse à porta? Que não comesse o fruto proibido?” – ele lhe perguntou.

“Perdoem-me, desobedeci às ordens daqueles que queriam meu bem, daqueles que queriam me salvar, porque senti fome e o fruto pareceu-me belo” – ela explicou, sua voz soando em mil e um arrependimentos – “Deveria ter feito o sacrifício, mas agora tornei todos os esforços daqueles que tentaram por mim algo em vão. Pobre caçador, deveria ter lhe entregado um coração de ouro. Pobre papai, eu não fui capaz de remoer o véu sobe seus olhos e nem sobre os meus!” – ela exclamou, um pequeno soluço escapando de seus lábios.

Os sete anões abaixaram suas cabeças, não mais precisariam de avatares para se esconder, tornando-se então nos Sete grande arcanjos. Falharam, os humanos não conseguiam ver a escuridão encoberta pela beleza.

Quando à Dama Morte partiu levando Branca de Neve, construíram então um esquife de ouro e cristal e guardaram ali o corpo da jovem. Na lápide dourada, as inscrições:

“Não tome por puro aquilo que é somente belo. Não tome por sorte o que é na verdade a mão de Deus”.

Agora todos que passam pela floresta e pelas ruínas daquela casa onde a beleza e a pureza moraram por um dia choram ao se lembrar dos dias de glória de um reino que não mais existe, pois os anjos abandonaram aquele lugar e seu rei estava cego, deixando tudo nas mãos da inveja doentia de uma mulher que não conseguia compreender o que era amor verdadeiro.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

..:: Livraria do Macaco Pensador ::..


A livraria do Macado Pensador reúne algumas das publicações dos autores que contribuem com essa página.
Com diversas opções de gênero, você pode encontrar um livro que com certeza vai agradá-lo e distraí-lo a qualquer momento!
O povo brasileiro não costuma ler muito, mas podemos mudar isso com pequenos hábitos.
Escolha um livro e o deixe na bolsa ou na mochila com que certeza a oportunidade de lê-lo surgira, seja no caminho para o trabalho, para a escola, durante uma viagem! Aproveite o feriado de carnaval e coloque em sua mala esse companheiro.
Tá certo que você com certeza pensara que sequer vai tirá-lo de lá, mas ai é que você se engana! Com certeza tera um momento em que você vai procurar relaxar e descansar e é nesse momento que você poderá ler seu livro. Sera uma viagem dentro de sua própria viagem, pode ter certeza!
Caso queria conhecer os trabalhos dos autores que colaboram com nossa página basta clicar aqui e clicar na capa do livro que o interessou para ser redirecionado ao site!
Tenham uma boa leitura e não esqueçam de curtir a página do Macado pensador ein!