segunda-feira, 12 de março de 2012

..>> Can You See me? <<..

O moletom cinza refletia os raios alaranjados do por do sol enquanto Icaru corria em volta do lago, o vento frio não lhe incomodava, sua pele sequer sentia a sensação gelada que desvia das montanhas e pairava pelas águas cristalinas do lugar. Ele não sabia exatamente porque estava fazendo aquilo, mas era uma forma de colocar suas ideias no lugar, de colocar um pouco de toda a energia que sentia em alguma coisa.
A princípio ele não estava interessado na maioria das atividades da escola, afinal ele não era um humano, não havia porque passar por aquele tipo de coisa, mas aos poucos as coisas mudaram. O time de basquete despertara sua atenção de forma natural, sua habilidade com a bola e a cesta surpreendeu-o e agora ele fazia parte da equipe.
Fazer parte de uma equipe, aquilo era algo que surpreendia de uma forma que ele não seria capaz de explicar para alguém, ou melhor, que ninguém entenderia afinal.
Ele ergueu a cabeça, os raios banhando seu rosto, deixando sua pele alaranjada enquanto ele sorria. Há quanto tempo ele estava correndo ali? Ele retirou o capuz, seus cabelos ruivos caindo sobre os olhos verdes, fazendo-o semicerrá-los enquanto movia a cabeça para o lado para afastá-los.
Seus olhos se fixaram em uma das mesas que ficavam dispostas à beira do lago, os longos bancos de madeira convidavam para pic nics, reuniões, mas isso não chamou a atenção dele.
Aquela hora a maioria dos alunos já estariam recolhidos, mas havia alguém sentando em uma das mesas e assim que reconheceu quem era Icaru sorriu. Ela estava retribuindo o favor que ele lhe fizera ao visitá-la em seu treino no tatame e agora estava ali esperando por ele?
Ele continuou sua corrida, subindo um pequeno morrinhoa té alcançar a mesa onde a garota estava. Ela usava uma jaqueta jeans surrada sobre uma regata verde oliva e shorts pretos, trazia sua espada de kendo e estava com os cabelos presos, provavelmente ela havia acabado de deixar o treino. Ao lado dela um saco pardo deixava escapar um cheiro muito apetitoso.
- Oi... - ele escalou o banco e sentou-se ao lado dela na mesa, Yumi afastando-se de lado e o olhando, sorrindo com o cumprimento.
- Oi... - ela respondeu num tom baixo e ele reparou que o rosto dela ainda estava corado, é, talvez ele estivesse certo e ela tivesse saído do treino a pouco tempo. Ele desviou o olhar para o saco, reconehcendo a logomarca de um restaurante de fast food. Ele sentiu seu estômago roncar, aquilo era tão humano afinal.
Yumi tirou um dos copos vermelhos de refrigerante e colocou diante dele, espetando o canudo amarelado e esperando que ele apanhasse. A bebida estava doce e gelada, o que era muito bom depois de uma corrida.
- Achei que havia um trato sobre não mimar um ao outro - ele disse, encostando o canudo na boca e tomando um gole enquanto a olhava - Ou então algo me diz que o gosto doce dessa bebida vai ter um preço um pouco amargo - ele sorriu, sabia que ela nunca lhe pediria nada demais. Amigos, ela havia se tornado sua melhor amiga naquele um mês.
- Eu só achei que seria justo - ela respondeu, dando de ombros enquanto apanhava o outro copo e fazia o mesmo com o canudo, tomando um longo gole da bebida - Me disseram que você foi muito bem no treino de hoje, então achei que o novo capitão merecesse - ela ergueu o copo como se brindasse e Icaru coçou a cabeça, encolhendo como se ficasse pouco a vontade com aquele título, mas sorriu.
Ele estava com os dois pés sobre a mesa, ao contrário dela que mantinha os pés sobre os bancos. Ele deixou o refrigerante de lado e estendeu a mão, pedindo o pacote de lanches.
- As notícias correm rápido demais aqui, eu havia me esquecido disso - ele respondeu um tanto sério - Mas eu vou aceitar sua comemoração... - ele disse, apanhando os aco que ela lhe jogou no ar e abrindo. Um sanduíche com bacon e queijo, era tudo o que ele poderia desejar e desejava naquele momento. Havia outro sanduíche, provavelmente o dela. Ele retirou os dois dali de dentro e então estendeu para ela o outro embrulho, um sanduíche de frango e salada.
- Se não aceitasse eu faria você engolir ele de qualquer forma - ela apanhou o sanduíche da mão de Icaru e então passou a desembrulhá-lo, olhando para o pão em sua mão - Na verdade as notícias não correm tão rápido assim, foi só alguém que me disse, alguém que estava feliz por você - ela completou num tom baixo, levando então o lanche à boca.
Icaru mordeu seu próprio lanche, ele sabia quem seria o tal alguém a quem Yumi se referia, era alguém que ele estava tentando evitar em pensar, tentando evitar em encontrar, mas era impossível afinal. Ela estava no treino, estava em todos os treinos para dizer a verdade e por algum motivo ele torcia que o motivo para a assiduídade dela fosse outro que não ele.
- Eu também estava no treino de hoje, um pouco, no começo na verdade - Yumi continuou ao notar que ele nada dizia. Ela o olhou de lado, sabia bem qual era a expressão que Icaru fazia quando ela começava a falar sobre aquele assunto.
Ele deixou seu olhar vagar pelo horizonte onde os raios laranjas começavam a ser substituídos pelos raios arroxeados do anoitecer.
- O que mais ela disse? - Icaru interrompeu Yumi, colocando seu lanche sobre o embrulho, observando a caçadora morder o lábio enquanto tornava a olhar seu próprio lanche, como se ele fosse capaz de lhe dizer o que exatamente ela tinha que dizer para Icaru. O que ela tinha que dizer para que ele simplesmente não virasse às costas entendendo tudo errado.
- Não conversamos muito, eu queria sair para comprar os lanches. Ela disse que está orgulhosa de você, mesmo que isso não import... - ele se calou ao ouví-lo bufar e ele saltou da mesa, levantando-se e andando de um lado para o outro, com as mãos nos bolsos.
Sua mente tinha claro a imagem da outra garota, os longos cabelos caindo sobre as costas dela, o sorriso que sempre se mostrava gentil para ele. Ela não podia entender? Eles cometeram um erro.
Aquela noite no quarto dele não ia se repetir, o beijo, as discussões. Tudo aquilo deixava claro que havia algumas coisas que não tinham porque ser e mesmo que algo dentro dele queimasse quando ele lembrava daquilo ele sabia que era mero desejo. O que Marina idealizava nele só existia na mente dela, ele era confuso, ele não era nenhum herói, ele era apenas alguém perdido, um otário perdido em seus próprios erros. O filho de seu próprio fracasso, cheio de buracos em sua própria personalidade, tornando-o tão inconstante ao ponto de beijá-la e depois desejar esquecê-la.
Ele parou diante de Yumi e olhou para ela. Ela também não tinha culpa, mas ele sempre ficava tão irritado quando ela começava a falar daquele modo, quando ela tentava fazer com que ele aceitasse o fato de que Marina estava apaixonada. Ele não sabia explicar o porque, mas se qualquer outra pessoa dissesse aquele tipo de coisa tudo seria diferente, ele saberia o que responder, mas quando era Yumi ele simplesmente saia do sério.
- Eu já falei com você sobre isso Yumi, você já... viu como isso funciona... - ele parou diante dela, apoiando as mãos sobre a mesa, uma de cada lado dela, olhando então nos olhos da garota - Pare de tentar mudar isso, eu não vou voltar com ela - ele se afastou, sentando então no banco ao lado dos pés dela e apoiando às costas na mesa, deixando sua cabeça pender para trás, olhando o céu, olhando as nuvens sobre as copas quase negras das árvores - Por que você quer tanto isso? - ele perguntou de repente, se virando para ela.
Yumi arregalou os olhos por um momento, encarando-o sem saber o que realmente responder, porque ela realmente não entendia o porque de querer ver Icaru com outra garota. No fundo ela apenas não queria admitir que aquela seria a maneira mais fácil para que ela não se sentisse tentada e desejar que ele olhasse para ela.
Ela desviou o olhar, ajeitando-se melhor sobre a mesa, colocando um dos pés sobre o tampo de madeira e mordendo seu sanduíche, fazendo qualquer coisa para adiar a resposta que Icaru queria ouviur, porque aquela não era a resposta que ela queria dar.
- Vocês são bonitinhos juntos - ela limitou-se a dizer e Icaru riu, seu riso saindo cheio de cinismo enquanto ele se levantava e sentava-se na mesa dessa vez.
Ele inclinou o corpo para frente e apoiou os cotovelos no joelhos, olhando para frente enquanto abria e fechava a boca algumas vezes, as palavars dançando em seus lábios, mas ele desistia e acabava negando com a cabeça.
- Se for assim então eu talvez deva ficar com você - ele se virou para ela, ela certament se magoaria com ele, asm ele estava irritado e não cnseguia pensar em alguma coisa gentil a dizer e ele não queria mais ouvir aquele tipo de insinuação - Você combina comigo em muitos sentidos então talvez a gente simplesmente devesse levar isso em conta e nos beijar agora - ele ergueu a mãoa té o rosto dela, segurando seu queixo e se aproximando.
A frase fizera uma onda de choque correr pelo corpo da garota e ela só se deu conta da proximidade de Icaru quando o nariz dele estava quase tocando o dela. Como se ele lhe desse um choque ela acertou-se um tapa na mão, se afastando dele com uma expressão zangada. Por que ele estava agindo daquele modo?
Ele afastou a mão, abaixando a cabeça enquanto Yumi permanecia calada, o coração batendo rápido demais, seus dedos afundando no pão macia, fazendo o molho manchar a embalagem do sanduíche. Sim, fora bastante estúpido o que ela havia dito, mas ele não precisava agir daquela forma, como se ela simplesmente nunca fosse rejeitá-lo. Ela rejeitaria ele, ela tinah que rejeitar ou ele não estaria mais ali.
- Você é tão estúpido! - ela exclamou e dessa vez foi ela quem levantou da mesa, as mangas da jaqueta jeans cobriam suas mãos e ela as apertava com força, sua bota agora chutava e torturava a grama da beira do lago - Isso não tem a ver comigo, eu não estou apaixonada! - ela disse, fechando os olhos por um minuto e colocando as mãos sobr as têmporas, as apertando enquanto tentava se acalmar e não dizer algo do que fosse se arrepender depois.
Ela não estava apaixonada, ela só havia amado um cara em toda a sua vida e era nele que seus pensamentos se forçavam em encontrar um ponto. O desprezo do outro garoto era a melhor forma de colocar todos os garotos como desprezíveis, achar que Icaru ficaria com Marina e ignoraria ela era a melhor forma de colocar qualquer sentimento de atração que tinha por ele num ponto onde se tornaria apenas uma emoção desprezível.
- Ela não está apaixonada! - ele replicou, batendo a mão em punho no banco de madeira. Que droga! por que ninguém conseguia entender que aquilo fora culpa dele? Fora ele quem beijara Marina e agora ela acreditava que ele era o melhor para ela? - Se eu beijar você vai ser o suficiente para dizer isso? Por que você não entende de uma vez por todas? - ele se levantou e parou ao lado dela - Por que acha que se eu quisesse estar com ela eu não estaria ainda amis sabendo que ela também quer isso?! Que droga! De todos os idiotas que me perguntam isso o tempo todo, que me perguntam sobre ela, você é a que mais me irrita Yumi Campbell! - ele esperou que ela ao menos o olhasse dessa vez.
Yumi sentiu seu estômago se embrulhar enquanto aquela sensação de que lágrimas se acumulavam em seus olhos se fez sentir. Aquilo era ótimo, aquela sensaçãod e que você fez algo estúpido mas podia se desculpar caso aprecesse ser frágil demais. Era ótimo, mas ela não queria aquilo. Ela se virou para Ivaru deixando toda a indignação que sentia tingir seu rosto.
Uma sensação ruim, aquela sensação que temos um segundo de dizer as coisas que não devemos dizer. Aquele filme cheio de cenas com a pessoa que estamos afastando. Ela mal havia aberto a boca e podia ver Icaru através da grade que separava a quadra e a arquibancada. Ela sorria e acenava e ela acenava timidamente, tinha medo de magoar Marina, mas ele parecia imune a outra garota.
Ele corria com a bola, batendo-a com rapidez no chão, mas na mente dela cada impacto acontecia em câmera lenta, como as batidas de seu coração, cada desvio dele era como se ele deixasse os adversários para trás e viesse até ela e ele estava vindo, mas quando estava há alguns metros ele saltou, saindo de seu campo de visão.
Um ponto para o time, ele ainda estava pendurado no arco, rindo e então caiu diante dela, os cabelos ruivos quase cobrindo os olhos, a pele dele com um brilho quase sobrenatural, era tão diferente vê-lo como alguém normal, como um garoto de colégio fazendo cestas para o time.
- Pra você... - ele sussurrou e então virou-se de costas, correndo novamente para o meio da quadra. Ela sorriu, mas seu sorriso logo sumiu quando ela notou o olhar da outra garota sobre ela.
Yumi sentiu um calafrio quando seus olhos encontraram os de Marina e ela sentiu que sua amizade com Icaru realmente deveria incomodar a outra garota, mas fora algo que acontecera naturalmente, algo que ela não conseguira impedir.
- Eu estou falando com você! - Icaru segurou o ombro dela e a sacudiu, Yumi demorou alguns segundos para perceber que não estava na quadra, que ele estava diante dela e que os olhos dela estava vermelhos, assim como a ponta de seu nariz - ... por que está chorando? - ele perguntou, tirando a mão do ombro dela, como se aquilo fosse uma arma e não dedos.
- Eu não estou... - ela levou as mangas da jaqueta ao rosto, passando-as de forma nervosa sob os olhos, fechando-os por um momento - E eu... - ela mordeu o lábio, lembrando-se do olhar de Marina, lembrando-se do olhar dele ao fazer o ponto, lembrando de cada olhar dele, de cada vez que ele não se importava nenhum pouco de deixar Marina falando sozinha e ir até Yumi. Ela se sentia uma intrusa - ...Eu não quero me apaixonar por você nunca! - a frase escapou, surpreendendo até mesmo Icaru que recuou um passo. Ela havia dito aquilo com tanta raiva que tudo o que ele conseguiu fazer foi erguer as mãos e abrir a boca, mas nenhum som saiu - Eu sou uma idiota irritante, mas você é pior do que eu! E se te irrito então porque quer tanto ficar aqui? Por que você fica dizendoe fazendo coisas como se eu fosse sua amiga? Como se eu importasse?! Como se eu... valesse... - a voz dela foi sumindo. Ela havia tentado ser tão forte, tantas vezes, ainda mais quando estava com Icaru aquilo era tão difícil.
Icaru ficou em silêncio, observando a garota que insistia em manter a cabeça baixa e enxugar o rosto, fungando o tempo todo, como uma menininha que não conseguia enfrentar seu problema e no caso ele era o problema.
- Você está me irritando... - ele começou e Yumi sentiu uma pontada no estômago, mesmo bravo, aquele não era o Icaru que ela conhecia, aquelas coisas que ele dizia não eram as coisas que ele dizia - como se valesse... - ele repetiu em voz baixa, aproximando-se então dela, apoiando as duas mãos nas curvas da cintura estreita da garota - você me irrita quando não vê as coisas... - ele completou, puxando-a para um abraço, forçando-a contra seu peito memso que ela relutasse.
- Pra você - ele havia oferecido aquele ponto para ela no treino do dia anterior e ele queria oferecer mais pontos, havia sido um bom jogo, o melhor jogo an verdade. Agora que estava acostumado com os outros garotos do time, que sabia o quanto poderia se esforçar, ele sentia-se mais animado.
Ele fez mais pontos na partida, mas quando a procurava nas arquibancas para dizer algo não a encontrava. Yumi havia simplesmente saído e sequer se despedira. Havia acontecido algo?
Ele sentiu-se irritado, o olhar de Marina parecia perseguí-lo por toda partida e sempre que ele encarava os bancos a havia acenando para ele, vendo-se obrigado a retribuir, vendo-se obrigado a sorrir, mas ele sentia que aquilo estava errado.
Depois do treino a garota fora falar com ele, mas ele não tinha nada a dizer, ele não sabia o que dizer e isso foi o suficiene para que ela pregasse uma peça nele.
Os lábios dela moviam-se sobre os dele como na primeira noite dele no Canadá, como a boas vindas de Whitler e tudo o que ele limitou-se a fazer foi afastá-la. Marina sorria de forma vitoriosa e se afastava e ele permanecia ali como uma estátua, sem coragem de dizer o que tinha que dizer para Marina.
Ele apoiou a cabeça nos cabelos de Yumi e então fechou os olhos.
- Marina! - ele chamou e a garota parou, surpresa e ele caminhou até ela, olhando-a nos olhos. Era difícil encarar alguém que tem tantas ilusões sobre você, mas ele sabia que se não dissesse aquilo naquele momento ele nunca diria - nós precisamos conversar... - ele começou, torcendo para que nada desse errado dessa vez, para que ela não desmaiasse ou fingesse qualquer mal estar. Ela nunca o ouvia até o fim e aquilo era tão injusto.
Lágrimas, as mãos dela acertaram seu rosto diversas vezes, frias e quentes, exatamente como todos os sentimentos que passavam pela cabeça da garota. Ele estava sendo sincero, ele não podia ser alguém que ela queria que ele fosse, ele não podia ser o garoto perfeito, porque ele não era perfeito, ele era um fracasso.
Ele ficou uma longa hora a abraçando ali, perto dos vestiários, ouvindo algumas piadinhas de quem passava, até que por fim ela se acalmou. Não, ela não ia desistir, ela jurara aquilo para ele, olhando-o cheia de mágoa mas ainda cheia de amor.
Ele passou a mão pelo rosto e deixou-se escorar pela parede enquanto a menina ia embora. Icaru bufou, olhando o corredor agora vazio e praticamente escuro, fora o último a deixar o ginásio naquela noite.
Yumi permanecia imóvel em seus braços e ele a afastou apenas para ter certeza de que ela ainda estava chorando, que ele a havia magoado com suas palavras, que ele estava sendo dúbio e imprudente com os sentimentos dos outros. Ele não devia ter dito que a beijaria, mas ele quisera dizer isso. O motivo era tão simples.
- Yumi... - ele colocou a mão sob o queixo dela, erguendo o rosto e vendo os olhos verdes semicerrados cheios de mágoa. Ele quase riu, afinal eram tão irônicos aqueles mals entendidos - Me desculpa... - ele pediu, sua expressão tornando-se estranha enquanto ela apenas assentia dizendo que sim, encarando-o com um ar de superioridade, como se tudo aquilo de agora pouco não tivesse sido nada.
Ele bufou, soltando o rosto dela e passando a mão pelo pescoço, olhando em volta os últimos raios laranjas se apagando, a escuridão passando a cercá-los.
- Se pudesse mudar alguma coisa Yumi, quando chegou aqui, você mudaria? Você me... ignoraria aquele dia na escadaria? - ele perguntou, passando a língua pelos lábios, eles pareciam secos como se não bebesse nada há horas.
- Não! - ela respondeu prontamente, mordendo o lábio em seguida, olhando-o nos olhos. O que era aquela pergunta agora? - Não sou eu quem estou com raiva de você - ela disse - além disso, nada se pode mudar do passado, se mudasse... talvez nada realmente mudasse - ela continuou, sentindo-se confusa e preferindo se calar então. Falar de sentimentos era tão difícil.
- Então tudo bem - ele assentiu e depois negou com a cabeça, assentindo novamente. O que estaria pensando? Ele estava agindo tão estranho.
Os lábios de Icaru se fecharam numa linha reta e ele voltou a encarar a garota diante dele, os cabelos ruivos dela apreciam ganhar ainda mais vida ao pôr do sol.
Ele estendeu a mão, envolvendo a nuca dela, olhando-a fixamente por alguns segundos, seus olhos querendo decorar cada linah do rosto de Yumi antes de se fecharem e então ele a puxou para frente, colando seus lábios sobre os dela, movendo-os com um pouco de urgência enquanto sentia o gosto salgado das lágrimas dela misturarem-se ao gosto doce do refrigerante.
Icarus entiu os punhos fechados da garota encontrarem seu peito, esmurrando-o tentando afastá-lo, mas ele continuou no mesmo lugar, mesmo que aqueles golpes cheios de raiva o incitassem a fugir. Não, ele não ia fugir, ele ia fazer aquilo pelos dois então, pelo pouco tempo que restava para os dois. Se ele se arrependeria depois e mudaria algo? Não, como Yumi mesma dissera, talvez nada mudasse.
Os sons de protestos dos lábios dela logo se calaram e então ele deixou sua língua deslizar para fora de sua boca, encontrando a boca dela, sua mão descendo pelos longos cabelos que se enroscavam em seus dedos enquanto com o outo braço ele envolvia as costas dela, trazendo-a para si.
Então aquela era a sensação certa de se sentir? Quando não era só o desejo que queimava e você queria tanto aquela pessoa como se ela fosse uma parte sua arrancada e agora estivesse ali, prestes a se juntar a você pelo simples toque de um beijo?
Icaru fechou a mão nos cabelos dela, afastando-os do ouvido de Yumi, deixando seus lábios deslizarem pela bochecha dela até encontrarem seus ouvidos.
- Você me irrita... porque você não me vê e eu te vejo o tempo todo - ele confessou num sussurro. Estava cansado dela olhar para ele e ver apenas Marina enquanto ele a deixava cada vez mais entrar em seu mundo, cada vez mais guiar o que ele fazia e sentia.
Ele voltou a beijá-la, deixando sons doces e baixos escaparem de seus lábios enquanto provava a pele dela, o gosto salgado de todo de todo o esforço dela no treino, das lágrimas que haviam escapado. Ele queria aquilo, ele quisera aquilo por muitos momentos.
Ele se afastou dela, seus olhos procurando o olhar confuso da garota enquanto ele simplesmente sentia-se completamente compreendido. Não havia no que pensar naquele momento, no que questionar. O que ele queria e pensava ficara tão claro que ele sentia que se sua existência terminasse naquela noite ele teria feito exatamente o que tinha que ser feito.
- Eu quero que me enxergue... a partir de agora eu quero que me veja e não veja outra pessoa além de você ao meu lado... - ele soltou ela de seu abraço e então recuou um passo, deixando sua mão descer pelo braço da garota - Eu... quero você do meu lado, em todos os treinos, em todos os momentos em que você puder fugir e vir até mim, em todos os minutos que você tiveer disponível e quando não tiver mais nenhum tempo. Eu não me importo se isso é ser egoísta, mas eu vi que o amor é egoísta então eu não vou fingir que eu sou melhor do que realmente sou e deixar você livre - ele estendeu a mão - Você... me vê agora Yumi? - ele perguntou, fazendo um gesto no ar - Você vê o quanto vale para mim?
Yumi sentia o sangue pulsar em suas bochechas, seus olhos fixos em Icaru como se o visse pela primeira vez. A mão estendida dele no ar, as palavras dele, o beijo.
Seus lábios ardiam ao sentir os resquícios do toque dos lábios de Icaru e ela ainda não conseguia entender o que acontecera. Seu coração batia tão forte como todas as dúvidas e cenas anteriores martelavam perguntas em sua mente, acima de todas aquela que ele fazia.
Ela conseguia enxergá-lo? Ela conseguia ver além do ex-namorado de uma das garotas do colégio que ainda era apaixonada por ele? Ou ela só via eles juntos e ela ainda era a intrusa?
A mão de Yumi tremia quando ela a colocou sobre a mão de Icaru e ela sabia que o que dissesse, qualquer coisa que dissesse não seria sincero, então talvez fosse melhor não dizer nada, então talvez fosse melhor aprender a caminhar segurando aquela mão e aprendendo a ver quem ele era de verdade.
- Eu quero ver você, eu quero te ver de verdade - ela deixou seus olhos encontraram o dele e ele apenas assentiu, o silêncio os cobrindo assim como o anoitecer que finalmente caia.
Não precisaria de muitas palavras bonitas ou pensadas, agora havia algo novo para ambos, algo que eles descobririam por suas próprias pernas e veriam por seus próprios olhos, com suas próprias feridas, seus erros e acertos.
Esse se aproximou dela mais uma vez e então a abraçou, no fundo estava feliz por ela não ter dito nada, por não ter colocado sentimentos onde deveria apenas existir o silêncio e quando ela envolveu ele em seus braços ele percebeu que agora ela começaria a vê-lo, a ver somente ele.

Para quem quiser curtir a soundtrack da fiction: http://www.youtube.com/watch?v=2DpMPzu5SrM

sábado, 25 de fevereiro de 2012

..:: Tão perto ::..


(Todos os personagens dessa história são fictícios)


I've spent so much time
Throwing rocks at your window
That I never even knocked on the front door

I walk by statues never even made one chip
But if I could leave a mark
On the monument of the heart
I just might lay myself down
For a little more than I had

The last day
The last day
The last day

Wait a time to spare these lies
We tell ourselves
These days have come and gone
But this time is sweeter than honey

""Por todo tempo eu estive olhando pela janela

Desejando alcançar o lado de fora

Meus dedos tocavam os vitrais coloridos imaginando se o mundo lá fora também era assim

Mas nunca ousei tocar o fecho e empurrar aquelas folhas

Por todo esse tempo eu estive olhando pela janela e nada fiz

Assim a vida passou...""

Eu me lembro que quando era pequena havia uma grande janela com grossas cortinas encardidas.

Ela janela ficava numa sala onde minha família guardava quinquilharias, móveis antigos, brinquedos usados, ferramentas que todos sabemos que talvez (ou nunca) um dia iremos precisar. Aquela era a sala dos fantasmas.

Eu gostava daquele canto da casa, na verdade ele acabou tornando-se um dos meus cantos favoritos.

Sempre que queria ler e queria um lugar sossegado para fazer isso eu levava meus livros para aquela sala e me sentava abaixo da janela, o lugar mais iluminado daquele lugar e ficava ali até que o sol houvesse se escondido demais a ponto de eu não conseguir enxergar mais nenhuma das letras nas páginas.

Geralmente quando estava ali eu lia em voz alta, gostava de fazer caras e bocas imaginando as feições dos personagens das histórias que povoavam minha infância.

Um belo dia ao chegar na sala me deparo com um vulto na janela e sinto meu coração saltar no peito. Do lado de fora havia um homem, provavelmente meu vizinho. Mas o que ele estaria fazendo ali?

Chamei, mas não obtive nenhuma resposta e então me aproximei, sentando-me em meu lugar sob a janela e começando minha leitura. Talvez ele estivesse apenas cuidando do jardim dele, afinal aquela janela dava para o jardim vizinho.

Eram quase sete horas quando terminei minha leitura, tão distraída que já havia me esquecido do vizinho, tão entretida em interpretar às frases e os personagens que esqueci do intruso na janela, afinal ele estava ali em meu mundo sem ser convidado.

Quando me levantei olhei para o pano em tons de azul escuro e roxo pelo pôr do sol apenas para ter certeza de que ele já havia se ido e realmente fora o que acontecera.

No dia seguinte, logo após o almoço eu voltei para meu cantinho, com novos livros que havia comprado naquela manhã e alguns sanduíches que havia feito. Assim que entrei na sala empoeirada e cheia de objetos cobertos por lençóis me deparei novamente com o vulto na janela.

Isso aconteceu ao longo de toda a semana, de todo o mês e quase um ano depois, em uma manhã chuvosa, soube que meu vizinho morrera em um acidente de carro.

Entristeci-me sinceramente, estava acostumada à sua presença todos os dias nas janelas, às vezes acabava lendo um pouco mais alto do que costumava apenas para que ele ouvisse também. Não sabia se ele gostava do que ouvia, mas como todos os dias estava lá eu passei a me esforçar em minhas interpretações e às vezes até fazia perguntas, para as quais eu nunca ouvia uma resposta, mas nunca me sentia triste com isso.

Desanimada, fui para meu canto preferido da casa mas assim que encostei meus dedos na maçaneta dourada da porta desisti. Meus momentos de leitura que tanto me agradavam agora tinha perdido seu expectador e sua graça.

Passei um mês inteiro sem abrir aquela porta até que por fim o lançamento de uma nova história me cativou e como eu não poderia imaginar outro lugar para ler corri para a sala dos fantasmas e ao abrir a porta eu simplesmente congelei. Na janela, lá estava o vulto de meu vizinho fazendo sua sombra sobre as cortinas.

Pisquei diversas vezes, sentindo minhas mãos suarem enquanto o sangue parecia bombear em meus ouvidos.

Olhei para trás, para o corredor vazio e então tornei a olhar à janela. Imóvel, o vulto continuava em seu mesmo lugar, assim como eu.

Num impulso de coragem dei um passo para dentro da sala e então mais um e depois mais um, até me aproximar. Pensei em me sentar e ignorar aquilo, mas não conseguia. Meu medo e minha curiosidade cresciam a cada segundo enquanto em encarava as pesadas cortinas cerradas e o vulto por trás delas. Por todo aquele ano eu sequer havia visto seu rosto, ouvido sua voz. Para mim, nossas tardes onde eu lia deveriam ser mantidas em segredo, porque todos julgariam estranho eu passar a tarde toda com um desconhecido, contando-lhe histórias.

- O que está fazendo? - a voz da minha mãe às minhas costas me fez dar um salto e quando me virei deveria estar mais pálida do que qualquer fantasma de qualquer história de terror que já lera - Está pálida, não deveria ficar o dia todo nessa sala sem sol! - ela exclamou, aproximando-se de mim e da janela, puxando então as pesadas cortinas para o lado.

- Não! - eu gritei e derrubei meu livro no chão, jogando-me sobre mamãe como se fosse salvá-la de uma bala perdida, ela com certeza não estava vendo o vulto ali!

- Você enlouqueceu? - ela me perguntou, olhando então para a janela e rindo em seguida - O que? Vai me dizer que está com medo disso? - ela apontou e temerosa eu segui sua indicação.

Sim, lá estava ele, mas ao contrário do que pensei ele estava de costas.

Separei-me dos braços de mamãe e então me aproximei do vidro da janela, observando suas formas tão perfeitas molhadas pelo orvalho da manhã, sua superfície coberta pelo musgo esverdeado e por presentinhos que os passarinhos haviam deixado.

- ... - mal consegui responder mamãe, apenas encarando a estátua que ficava próximo à janela, formando o vulto agora no chão de madeira empoeirado.

Por quase um ano eu achara que estava conversando com alguém, dera vida àquela estátua e agora que descobrira a verdade me sentia perdida.

Milhares de coisas passaram por minha cabeça naquele momento, mas mesmo em minha infância, eu nunca pensei que havia perdido tempo com aquilo, com aquela amizade construída com o que para minha mãe era provavelmente um pedaço de pedra.

Sem hesitar, sai correndo da sala com meu livro em mãos e atravessei meu jardim, passando pelo vão da cerca que delimitava nosso terreno e parando quando alcancei o jardim vizinho.

Respeitosamente olhei em direção à casa, como se pedisse permissão e logo em seguida dei a volta para alcançar a parte detrás do jardim, onde estava a estátua.

Encarei seus olhos vazios por alguns segundos e então sorri, sentando-me diante dele e começando minha leitura.

É impressionante eu sei e até um pouco difícil de imaginar, mas agora aquela criação de pedra imóvel era meu melhor amigo e sem reclamar emprestou-me seus ouvidos por um longo tempo.

Tirei muitas lições que não julgo necessário relatar aqui, mas é claro que dentre todas essas lições sempre houve uma pergunta da qual nunca tive resposta. Quem ele era? Quem fora meu vizinho? Desde sua morte a casa permaneceu e permanece vazia. Será que ele também teria me ouvido? Será que ele também teria lido comigo?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

..:: A Dama das Cinzas, Branca de Neve ::..


Era a mais bela do reino e era então filha do rei, um rei justo e digno que tomara por esposa uma mulher de índole indigna.

Diziam que era uma feiticeira, diziam que era uma cortesão, tudo o que diziam sobre ela eram injúrias, mas o rei estava cego em sua paixão e seus ouvidos estavam surdos pelas batidas de seu coração.

Era a mais bela e bondosa e era a filha do rei e tinha por madrasta a mulher mais bela e maldosa que em pouco tempo enegreceu de tal forma o coração do bondoso governante e escureceu sua visão, transformando-o em um tirano que do alto de seu trono nada via além de sua esposa e sua filha.

“Era a filha do rei e deve ser morta” – pensava a mulher todo dia ao acordar, enquanto penteava seus longos cabelos dourados como ouro dos tolos e seus olhos cinzentos de tempestade encaravam ao espelho que lhe respondia com a mesma frase.

“É a filha do rei e é a mais bela e a mais bondosa...”.

Aquela frase enfurecia o coração da madrasta, que a princípio tentou ensinar à menina suas magias nefastas e encantá-la com o dom da dama da morte, mas que agora sentia a inveja crescer, pois sem enganar à morte, Branca de Neve tinha em seu rosto o brilho da vida que a tornava perfeita e a pureza em seu coração que a tornava intocada.

“Traga um caçador cruel, que em seu coração não haja nada além da ânsia por dinheiro e poder” – ordenou então aos guardas reais e trouxeram à madrasta o mais terrível caçador.

Suas roupas guardavam ainda o sangue de sua última vítima e em seu pescoço havia um colar cheio de presas afiadas de suas vítimas.

“Quero que mate um cervo, é puro e saltita pelos jardins do castelo, irrita-me ver sua alegria!” – a mulher lhe ordenou e então apontou para o espelho.

Refletido, o homem não viu sua caretonha, mas sim a jovem filha do rei que brincava entre flores e pássaros.

“Leve-a para o bosque, diga-lhe que irão apanhar uma família de coelhos para lhe fazer companhia e então me traga o coração nesta caixa. Quando eu tocar essa caixa o coração se transformara em ouro e essa será sua recompensa” – anunciou a mulher, fazendo o homem cruel sorrir.

Era a mais bela e era filha do rei cego pelas trevas e era inocente como os cervos que saltitavam pela floresta. As palavras do caçador fizeram-na saltitar rumo ao bosque e alegremente ela colhia flores para enfeitar à toca dos coelhinhos que buscariam.

“Acha que vão me amar?” – seus olhos azuis como os céus encontraram os olhos frios do caçador e ele se viu refletido neles e então ele viu toda a beleza da alma pura, pois não são os olhos o espelho da alma?

“Não haveria de ser de outro modo” – ele disse, desviando o olhar da pequena e então se forçando a pensar no coração de ouro.

Andaram ainda mais para dentro da floresta e agora Branca de Neve colhia frutos para alimentar à família de coelhos.

“Acha que gostarão das maçãs que estou colhendo?” – ela perguntou, erguendo entre as mãos brancas uma maçã vermelha, oferecendo-a ao caçador e este se surpreendeu. Ninguém havia lhe dado nada gratuitamente e mais uma vez seu olhar enterneceu-se sobre o rosto da jovem.

“Não haveria de ser de outro modo” – respondeu mais uma vez o homem e apanhou a maçã, devorando-a, sentindo o sabor doce da fruta em sua boca tão amargurada.

E assim prosseguiram o caminho, até que em determinado momento ela abaixou-se para encher uma cabaça com água e lavar o rosto. Estava de costas, despreocupada com o caçador, a quem julgava um companheiro, mas mal sabia que o homem lhe apontava uma flecha.

Ao encher a cabaça de água virou-se para oferecer ao homem um refresco, quando então se deparou com a seta mortal, apontada em sua direção.

Sua expressão encheu-se de pavor e seu coração acelerou-se dentro do peito. Por que aquele homem queria lhe ver morta? O que teria feito de errado?

“Perdoe-me” – ela exclamou, ainda de joelhos diante do caçador e então abaixou a cabeça – “Seja o que for que lhe fiz de mal, me perdoe!” – era doce e suplicante sua voz, mas a seta rasgou o ar em sua direção, atingindo então uma serpente que se pendurava nos galhos da árvore inclinada sobre o rio.

“Tome cuidado princesa, há cobras onde menos imaginava” – alertou-lhe o caçador, enquanto a cobra peçonhenta caía do galho dentro das águas do rio – “Há uma grande cobra em seu castelo e ela deseja seu coração de ouro! Fuja princesa, fuja enquanto os olhos de vidros de sua madrasta não a alcançam!”

Ao fim da tarde, tendo apanhado o coração de um cervo e colocado na caixa, o caçador retornou ao castelo ouvindo então os gritos da madrasta enlouquecida após constatar que aquele não era o coração verdadeiro e lhe explicar que não seria capaz de matar ao anjo daquele castelo.

“Inútil!” – ela bradou, tirando de uma parte secreta das saias do vestido uma varinha encantada, apontando-a em direção ao homem que se transformou em pedra.

“Terei eu que fazer o serviço!” – exclamou a mulher irada e sem prestar satisfações ao marido enlouquecido que ria sozinho em seu trono a madrasta saiu pelas portas do castelo, transformando-se então numa velha senhora que carregava com postura encurvada uma cesta com as mais lindas maçãs.

Sua intuição guiada pela bruxaria e por mil demoniozinhos, lhe dizia que estava Branca de Neve numa casa onde sete homens pequeninos lhe faziam companhia. Eram os Sete Anões, os sete anjos que guardavam àquelas terras onde a maldade jamais chegara.

Pois a bruxa esperou que aqueles anjos enterrassem suas asas dentro das minas e que cobrissem suas asas com as cinzas da porta do inferno para aproximar-se de seu santuário e arrebatar-lhe a princesa.

Ofereceu-lhe a mais bela das maçãs e, saudosa das refeições fartas de seu palácio, Branca de neve fincou seus dentes no fruto considerado a perdição dos homens.

Engasgou-se e envenenou-se, seu corpo sem vida tombando no chão do santuário dos anõezinhos, a fruta da serpente rolando de sua mão.

Ao retornarem, os anões perceberam que a Dama Negra rondava à casa e numa perseguição inútil tentaram lhe alcançar, mas mesmo que a perseguição triunfasse o mal já estava feito.

Fragilizados, retornaram então para à pequena casa perdida no bosque, ainda a tempo de encontrar a morte levando a alma de Branca de Neve pela mão.

“Espere!” – um deles suplicou e correu até a alma da jovem, segurando-lhe a mão etérea, olhando-a nos olhos sem brilho – “Pois não dissemos que não abrisse à porta? Que não comesse o fruto proibido?” – ele lhe perguntou.

“Perdoem-me, desobedeci às ordens daqueles que queriam meu bem, daqueles que queriam me salvar, porque senti fome e o fruto pareceu-me belo” – ela explicou, sua voz soando em mil e um arrependimentos – “Deveria ter feito o sacrifício, mas agora tornei todos os esforços daqueles que tentaram por mim algo em vão. Pobre caçador, deveria ter lhe entregado um coração de ouro. Pobre papai, eu não fui capaz de remoer o véu sobe seus olhos e nem sobre os meus!” – ela exclamou, um pequeno soluço escapando de seus lábios.

Os sete anões abaixaram suas cabeças, não mais precisariam de avatares para se esconder, tornando-se então nos Sete grande arcanjos. Falharam, os humanos não conseguiam ver a escuridão encoberta pela beleza.

Quando à Dama Morte partiu levando Branca de Neve, construíram então um esquife de ouro e cristal e guardaram ali o corpo da jovem. Na lápide dourada, as inscrições:

“Não tome por puro aquilo que é somente belo. Não tome por sorte o que é na verdade a mão de Deus”.

Agora todos que passam pela floresta e pelas ruínas daquela casa onde a beleza e a pureza moraram por um dia choram ao se lembrar dos dias de glória de um reino que não mais existe, pois os anjos abandonaram aquele lugar e seu rei estava cego, deixando tudo nas mãos da inveja doentia de uma mulher que não conseguia compreender o que era amor verdadeiro.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

..:: Livraria do Macaco Pensador ::..


A livraria do Macado Pensador reúne algumas das publicações dos autores que contribuem com essa página.
Com diversas opções de gênero, você pode encontrar um livro que com certeza vai agradá-lo e distraí-lo a qualquer momento!
O povo brasileiro não costuma ler muito, mas podemos mudar isso com pequenos hábitos.
Escolha um livro e o deixe na bolsa ou na mochila com que certeza a oportunidade de lê-lo surgira, seja no caminho para o trabalho, para a escola, durante uma viagem! Aproveite o feriado de carnaval e coloque em sua mala esse companheiro.
Tá certo que você com certeza pensara que sequer vai tirá-lo de lá, mas ai é que você se engana! Com certeza tera um momento em que você vai procurar relaxar e descansar e é nesse momento que você poderá ler seu livro. Sera uma viagem dentro de sua própria viagem, pode ter certeza!
Caso queria conhecer os trabalhos dos autores que colaboram com nossa página basta clicar aqui e clicar na capa do livro que o interessou para ser redirecionado ao site!
Tenham uma boa leitura e não esqueçam de curtir a página do Macado pensador ein!

A Fera sem beleza...


A porta estava entreaberta e o vento escapava por ela, assim como a alegria que um dia preencheu aquele lugar.

A chuva caía forte pela floresta, sobrepondo qualquer som, sobrepondo qualquer criatura que ousasse sair e enfrentá-la, mas isso não a intimidou.

A cada novo passo de Bela sua capa encharcada tornava-se mais pesada enquanto ela deixava o castelo da Fera para trás, tomada por uma suposta onda de loucura, pois todos sabiam que no instante em que Bela partisse tudo estaria perdido, mas ele não suportava mais prendê-la, ele não suportava vê-la sob sua própria maldição.

A chuva transformou-se em tempestade e o vento agora escancarara a pesada porta do castelo e o último calor da presença de Bela foi varrido no instante em que todas as velas do salão se apagaram.

Como se perseguisse à Fera, o vento subiu pelas escadas, passou por corredores e encontrou o antigo cavaleiro ao lado de uma janela.

em frente a ele havia um espelho e ao lado do espelho uma rosa vermelha.

Seu longo caule verde enegrecia aos poucos, a medida que o vento avançava para dentro do cômodo, a medida que as cortinas batiam com mais força, lançadas para dentro pela tempestade, molhando o chão, molhando a cama que um dia guardou um casal enamorado, molhando o quadro de uma princesa que jamais acordaria novamente, não importava quantas vezes seu amado a beijasse.

Um trovão rugiu, o raio iluminando o quarto totalmente, fazendo a besta se encarar em seu espelho encantado que partiu perante sua horrenda imagem. O som do vidro rachando e se estilhaçando correu por todo o castelo, levando consigo as últimas esperanças daqueles corações que ainda ansiavam pela presença de Bela. Ela se fora, as almas deles se quedariam ali para sempre, presas pela eternidade.

Assustados, os pobres empregados ainda correram escadaria acima, esperançosos de que ainda houvesse uma chance, mas assim que entraram no quarto de seu antigo amo viram que a rosa já havia enegrecido por completo.

Um calafrio correu por cada corpo que havia naquele quarto e apenas um deles ousou olhar o que aqueles cacos de vidro espalhados refletiam.

Não havia dúvidas, mesmo que houvesse se passado tantos anos, aquele cavaleiro deitado na escuridão era seu antigo amo e agora não vestia mais seu corpo de Fera. Frágil, encolhido no frio que a morte lhe trouxera, parecia não saber que estava sendo observado.

Seus lábios clamavam pelo nome daquela que o abandonara e que não tivera compaixão por ele, mas ele a compreendia, afinal quem poderia amar uma besta?

O pobre empregado estremeceu ao ver seu amo tão desesperado e afastou-se atordoado, no mesmo instante em que Bela aparecia à porta.

Seu rosto estava lívido e seus olhos já não tinham nenhum brilho, sua presença não trazia mais calor.

Em seus braços havia um buque de rosas vermelhas cujo os espinhos feriam-lhe a pele frágil, mas ela não parecia se importar.

Já não vestia mais a capa, não havia do que se proteger dentro daquelas muralhas, não havia mais o que proteger dentro dela. Tardiamente ela percebeu que seu amor estava naquele lugar que ela deixara.

Ela se aproximou dos cacos de vidro e então deixou o buque cair sobre eles, mas as pétalas tornaram-se enegrecidas no instante que tocaram o vidro que aprisionava a besta.

Seu peito encheu-se de dor ao ver a beleza de seu príncipe presa onde ela jamais poderia alcançar. Então aquele era ele?

Por um breve instante Bela vislumbrou sua imagem, seus olhos cheios do pecado que a cegou e não deixou que ela visse a beleza que a Fera trazia por dentro. Num ato de loucura, apanhou um dos cacos de vidro e antes que qualquer um a pudesse impedir cortou seus pulsos, deixando que seu sangue cobrisse todas as flores destruídas.

Soluços desesperados escaparam de seu peito e ninguém foi capaz de tirá-la de sobre os cacos que formavam a imagem de seu amado.

Seu sangue cobriu cada pedaço do espelho, unindo-os, cobrindo-os, mas não haveria sangue ou flor que trouxesse ele de volta. Não havia mais nada a ser feito.

Enterrando o sacrifício inútil e o amor amaldiçoado, as paredes do castelos começaram a tremer, como se a terra quisesse partir e engolir aquela tristeza de sua superfície.

Em vão os empregados tentaram fugir, mas seus olhos e suas mentes guardariam para sempre aquela tristeza, portanto não deveriam ser poupados, aquela história não deveria mais ser contada.

O castelo desmoronou antes que qualquer um chegasse às suas portas enterrando para sempre a tragédia do casal que não soube ignorar seus olhos e nem amolecer seus corações. A Bela e a Fera estariam unidos pela eternidade, mas cada um estaria de um lado diferente do espelho.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

:: Lycanthia ::


:: Lycanthia ::

"Eles haviam concordado em exterminá-los, mas ela não achava certo. Como poderiam fazer algo assim com aquelas pobres crianças? Mas as crianças estavam se voltando contra Gaia e eles tinha que ser punidos"

Liandra colocou a última caixa ao lado da porta e passou o braço pela testa suada, respirando fundo e deixando seus olhos correrem pela sala que agora estava vazia.

Aquela fora sua casa durante toda sua vida, mas agora era hora de deixá-la e embora fosse doloroso, Liandra sentia que aquilo era o melhor a fazer, por muitos motivos, mas o principal dele era exatamente a floresta.

A misteriosa floresta de Elvengod abrigava algumas poucas casas de famílias de guardas florestais e a região agora era desapropriada para a expansão de uma represa. Era o progresso, como seu querido noivo dizia e nada se podia fazer contra.

Nada? Liandra sabia que era possível fazer algo contra, ela sentia aquilo toda a noite, mais e mais e por isso é que a decisão de sair antes de qualquer outro havia surgido como uma válvula de escape.

Todos se surpreenderam com aquele anúncio, a filha do guarda florestal mais querido estava indo embora. Era claro que alguns comentários surgiram, todos diziam que sabiam que assim que o pai dela morresse ela viraria às costas para aquele lugar. O que ninguém entendia era que ela amava aquele lugar acima de tudo e amava aquelas pessoas e era exatamente por isso que estava deixando-os.

A última noite naquela cabana, ela tinha que resistir apenas aquela noite e tudo estaria acabado. Quanto mais longe estivesse, mais distante o chamado estaria e ele não a alcançaria, ao menos era isso que ela imaginava.

Um uivo cortou o silêncio que pairava dentro da casa vazia e Liandra deixou-se sentar em uma das caixas, fechando os olhos e respirando fundo, fechando o maxilar com força em seguida. ela tentava ignorar aquele chamado aos seus instintos, tentava concentrar sua atenção no vento, em todos os outros sons da floresta, mas todos eles pareciam fazer questão de se calarem.

Ela sabia que era questão de tempo e logo a dama infernal que habitava em seu sangue tomaria sua razão, exatamente como fizera com seus irmãos que agora estavam rondando a cabana.

Mais um uivo cortou o vento e Liandra sentiu os pêlos de seus braços e de sua nuca.

Ela olhou pela janela da cabana de madeira, divisava claramente cada um dos vultos que se moviam entre as árvores. Estavam esperando ela, ela teria que seguir com eles e não havia nada que pudesse fazer. As crianças seriam mortas naquela noite como um aviso.

O terceiro uivo ecoou e dessa vez o corpo de Liandra estremeceu. Aquilo era demais, negar seus instintos daquela maneira era algo quase doloroso a ser feito, mas se ela não refreasse aquelas sensações estaria se voltando contra tudo que sempre acreditara.

"Papai..." - ela pensou, sentindo lágrimas frias escorrerem por sua pele febril - "Me desculpe papai..."- ela fechou as mãos em punho. Por quanto tempo vinha negando sua natureza, por quantos anos se escondera em meio aos humanos?

Com um soluço ela caiu de joelhos no chão, seu corpo curvado, inclinado para frente, sua pele ardia enquanto parecia se partir, pequena demais apura revestir algo tão grandioso, algo tão... inumano.

Sem escolhas, dessa vez ela cedia ao chamado sem sequer poder evitar. Um estrondo ecoou dentro da cabana e aporta da frente fora arremessada para o jardim em milhares de estilhaço, um enorme vulto negro passando por ela, correndo em direção à mata que começava a alguns metros adiante.

Aquela não era mais Liandra, a filha adotiva amorosa e cheia de consideração pelo próximo, pela floresta que a cercava. Seus olhos vermelhos encaravam a noite, tingindo todo seu mundo com aquela mesma cor.

O instinto assassino a fazia vagar pelas árvores, passando pelas clareiras e pelos casebres das demais famílias.

Sua alma tinha desejo por sangue, mas a cada nova casa que visitava percebi que havia atendido tardiamente ao chamado da morte. Não, ela não queria devorá-los, ela queria salvá-los.

"Tarde demais..." - como milhares de vozes em sua mente, enquanto a madrugada avançava e ela continuava pela floresta, andando, tentando descobrir qual seria o próximo alvo da matilha. Nada, a presença de todos aqueles que ela conheciam e a recriminavam por sua decisão de ser a primeira a partir, todas aquelas pessoas foram as que partiram primeiro.

Havia uma última casa, uma última casa dentro da floresta, Liandra ainda tinha a esperança de salvá-los e por isso empreendia todo o esforço e utilizava suas últimas energias para alcançar a residência da família Duarte.

O sol estava quase nascendo quando ela finalmente alcançou a residência, encontrando a porta entreaberta, uma vez mais Liandra chegara tarde, seus irmãos haviam feito todo o trabalho e não havia nada que ela pudesse fazer para impedir aquilo, não que ela pudesse fazer grande coisa no estado em que estava, mas ela queria que seu sacrifício não fosse em vão.

Liandra subiu os pequenos degraus que haviam na varanda e passou pela porta entreaberta, o cheiro de sangue invadiu seu nariz imediatamente enquanto seus olhos se deparavam com as cenas de morte. Não havia sobrado muito do casal, não havia sobrado nada que pudesse identificá-los como humanos.

Liandra saiu da casa sentindo a dor cortar seu peito ao meio, não só a dor física, mas todo o sofrimento. Se ela houvesse atendido ao chamado de Gaia eles teriam poupado aqueles humanos? Se ela pudesse explicar que não fora uma escolha deles, eles entenderiam?

Mais alguns passos e seu corpo caiu para frente, tombando em meio ao jardim ordem alguns dos materiais da construção e até um pequeno trator estava. As obras para a construção da represa começariam em breve e era aquela a razão do chamado.

Os filhos de Gaia queriam deixar claro que a destruição daquela parte de Elvengod que os abrigava traria um grande peso para a humanidade e aquelas morte eram apenas um pequeno lembrete.

Parada no centro do jardim, Liandra ergueu sua cabeça, mirando seu focinho em direção à lua, deixando o uivo dolorido escapar de seu peito.

As patas da frente se dobraram e o corpo de Liandra caiu de lado, aos poucos uma mancha de sangue formou-se sob a imensa loba negra, no exato momento em que o sol substituía a lua no céu.

O brilho de uma adaga de prata surgia em meio aos pêlos, deixando claro porque a loba sofrera tanto para acompanhar o bando, para barrá-los.

Ciente que seus instintos poderiam mais uma vez falarem mais alto, antes que seu corpo se transformasse numa besta sedenta por morte ela havia fincado uma adaga de prata em seu peito. Sabia que aquilo causaria sua morte, mas ao mesmo tempo impediria a besta de tomar sua sanidade.

Fora uma decisão difícil e teve que ser tomada em poucos segundos, antes que aqueles lobos invadissem sua residência. Ela apanhou o punhal de prata que fora de seu pai e o cravara em seu próprio peito, seu corpo como reação a transformara em lobo e ela precisou fugir até que seus instintos assassinos amainassem e ela voltasse a raciocinar. Um pouco tarde, todo seu esforço fora em vão.

Seus olhos se fecharam com os primeiros raios de sol, uma última imagem turva deixara a impressão de ter visto alguém se aproximando, uma garotinha usando uma camisolinha branca manchada de sangue.

- Liandra... - a voz de menininha parecia hesitante, enquanto ela estendia a mão para tocar o corpo nu e ferido da jovem.

- Amara... - os lábios de Liandra delinearam o nome mas não emitiu nenhum som. A filha dos Duarte, da família dos engenheiros responsáveis pela construção da represa estava ali diante dela, a única testemunha de seu último suspiro.

Liandra fechou os olhos e seu corpo pareceu murchar, os ares de sua existência escapando por sua boca e batendo contra o rosto da menina.

Naquela mesma noite no topo da colina um grupo de lobos recebia uma criatura pequenina, quase semelhante a uma raposa em meio a eles.

Vestígios do tecido branco caindo pelo corpo do pequeno lobo marrom, ignorante de sua própria natureza, após ter negado por tantos anos seus instintos, Liandra passara sua maldição adiante, perpetuando o ciclo sem fim de sua existência dentro de um corpo frágil e humano, mas dessa vez ela não cometeria os mesmos erros. Era hora de ouvir o chamado de Gaia.